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A malandragem dos honestos

Luiz Zanin Oricchio

04 de dezembro de 2007 | 12h38

Começando pelo óbvio: este campeonato premiou o profissionalismo e puniu o amadorismo. Essa é a principal característica do sistema por pontos corridos e sem viradas de mesa: quem se prepara e se estrutura vai bem; quem confia no acaso e no sobrenatural, no jeitinho e na improvisação, dança.

O Campeonato Brasileiro, na fórmula atual, é regido pelo princípio da razão. Um princípio acumulativo, em que os pontinhos vão se depositando como dinheiro na poupança, ao longo de toda uma temporada. É o campeonato das formigas, não das cigarras. Estas, que vivem de espasmos de criatividade, não têm vez diante do trabalho árduo e metódico de quem constrói formigueiros.

Não por acaso, esta é a fórmula adotada em toda a Europa. No berço do capitalismo, o europeu joga bola com a cabeça e a máquina de calcular. É mestre na organização e na obtenção do lucro em cima do capital investido. A invenção, o imprevisível, surgem com maior freqüência na em geral bagunçada América do Sul. Vide Messi, Robinho, etc. Quando o europeu sente falta desse traço de originalidade, enfia a mão na carteira recheada e compra. Adquirido o talento, ele é colocado a serviço do capital. Simples assim.

No Brasil, o Campeonato Brasileiro premiou, pela segunda vez seguida, o único clube organizado com base na racionalidade empresarial, o São Paulo. Talvez essa eficácia possa ser alcançada por outros meios. Em todo caso, é bom que os outros clubes o imitem, ou descubram caminhos alternativos, senão estará aberta uma longa era de hegemonia do tricolor paulista. A diferença entre ele e os outros é enorme. Mesmo desmotivado e perdendo o último jogo, o São Paulo terminou 15 pontos à frente do segundo colocado, o Santos. Um abismo.

O caso oposto é o do Corinthians, cuja situação não pode ser explicada pela mera bagunça administrativa que atinge a maioria dos clubes. A gestão Dualib tentou outra coisa, uma pirueta mortal: queimar etapas e saltar do amadorismo mais tosco ao vale-tudo do capital globalizado. Em delírio de grandeza, acharam que poderiam seduzir a máfia russa e depois passar-lhe uma rasteira.

O desfecho era previsível desde o começo da parceria, mas confesso que não o esperava para tão cedo. Conheci pessoalmente Kia Joorabchian quando ele andava no auge do prestígio e assinava autógrafos nas mesmas camisas corintianas usadas para enxugar lágrimas no domingo. É uma figura interessante, e inquietante. Nunca responde a uma pergunta de maneira direta. É esquivo, tortuoso, seus olhos brilham e mudam de direção a cada instante, como se vivesse acuado. Quando saí do encontro, conferi se a carteira continuava no lugar. Eu não compraria uma caixa de fósforos em sua mão. O Corinthians foi arrendado a ele. Ou ao seu patrão, Boris Berezowsky, pois Kia não passava de testa-de-ferro da MSI.

Nesta hora de dor, convém à torcida corintiana lembrar que se tentou, inclusive com a ajuda de políticos, abrigar aqui Berezowsky, procurado pela Interpol, a pretexto de que traria muito dinheiro consigo. Pensou-se, como o imperador Vespasiano, que mesmo dinheiro ruim não tem cheiro. Na verdade, envolver-se com bandidos é a maneira mais fácil de se meter em encrenca. Assim, esse desastre corintiano deveria servir de exemplo aos outros clubes. E, por que não?, ao próprio País, de maneira geral. A grande malandragem ainda é ser honesto.

(Coluna Boleiros, 4/11/07)

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