A magia triste das ‘Cidades Fantasmas’
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A magia triste das ‘Cidades Fantasmas’

Luiz Zanin Oricchio

25 Abril 2017 | 11h33

 

Restos de Villa de Epecuen, na Argentina

Restos de Villa de Epecuen, na Argentina

Nada mais impressionante que cidades que um dia abrigaram vida, pessoas, trabalho, paixão, sonhos ,e hoje se encontram abandonadas. Essas urbes defuntas, com suas assombrações, é o tema de Cidades Fantasmas, de Tyrell Spencer. Apesar do nome gringo, Spencer é gaúcho da fronteira.

Com sua câmera, ele estuda quatro cidades que um dia deixaram de sê-lo. Huberstone (Chile), antigo centro produtor de salitre. Fordlândia, no Pará, que teve seu auge no ciclo da borracha e depois foi abandonada pela empresa de Henry Ford. Armero, na Colômbia, devastada pela erupção do vulcão Nevado del Ruiz, em 1985. E Villa Epecuén, antigo balneário de luxo argentino, destruído pela inundação do seu lago de águas medicinais.

Spencer encontra poucos e bons personagens para contar histórias dos tempos antigos. São às vezes vítimas e sobreviventes da tragédia que destruiu o lugar, como a mãe colombiana que conta ter se perdido da filha com quatro anos na ocasião e até hoje não a reencontrou. Ou do velho habitante de Epecuén, que se recusa a sair do lugar e hoje percorre as ruínas em sua bicicleta, seguido por uma matilha de cães.

Atrás de cada uma dessas tragédias pode ser visto o encontro de uma fatalidade econômica ou da natureza com o descaso das autoridades. Técnicas mal sucedidas, como o desvio de um rio para abastecer o lago de Epecuen em tempo de seca. Ou falta de aviso do perigo iminente de erupção às populações, como no do vulcão de Armero. Ou fim de ciclos econômicos, como o da salitre e o da borracha, não acompanhados do devido atendimento a populações entregues à própria sorte.

Além dos bons depoimentos, o filme se vale de uma filmagem intimista, a percorrer as ruínas em labirinto em longos planos-sequência, como a câmera de O Ano Passado em Marienbad, o clássico de Alain Resnais sobre o tempo. Cidades Fantasmas é também sobre isso, a fatal ação do tempo sobre as coisas e as gentes, o trabalho da morte, labor paciente, sem descanso, sem férias ou dias festivos.

Belo e melancólico filme.

A programação com horários, cinemas e sinopses, você encontra aqui. Vale lembrar: os ingressos são gratuitos.

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