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A magia de Limite

Luiz Zanin Oricchio

05 de novembro de 2011 | 20h22

O que há de novo sobre Limite? Muita coisa. O mitológico filme de Mário Peixoto foi debatido ontem pelos especialistas Ismail Xavier, Carlos Augusto Calil e Stella Senra. Hoje e amanhã poderá ser vista a cópia nova, recém-restaurada pela Cinemateca Brasileira e pelo laboratório L’Immagine Ritrovata da Cineteca di Bologna, na Itália, em uma iniciativa da World Cinema Foundation, instituição criada por Martin Scorsese.

Há muito Limite deixou de ser a “obra secreta”, que poucos haviam visto e muitos até duvidavam da existência. Mário Peixoto fez uma exibição pública no Cine Capitolio, em 1931, e depois a cópia parou de circular. A sessão foi tumultuada. Alguns acreditam que o próprio Mário teria comandado as vaias, como forma de promover o filme. Não é impossível. Como se sabe, ele fez circular um artigo elogioso, assinado por Sergei Eisenstein e que depois se comprovou ter saído da pena do próprio Mário.

De qualquer forma, o filme parou de circular e ganhou a aura mítica da obra-prima perdida. Em seu livro de 1963, Revisão Crítica do Cinema Brasileiro, um jovem Glauber Rocha dedica um capítulo ao filme (O Mito Limite), atacando-o sem tê-lo visto. Em 1978, em artigo de jornal, Glauber diz que, por fim, havia visto o filme de Mário Peixoto e mantinha a opinião de 1963: “produto de intelectual burguês decadente”. Em seu jacobinismo revolucionário, Glauber ressalva que “a decadência é bela”, e, assim como Peixoto, também Machado de Assis era decadente. Ou seja, Mário, apesar da pecha de burguês, andava em excelente companhia, mesmo no radical julgamento de Glauber.

Como sabemos, Limite foi salvo da destruição total pela devoção de Plinio Süssekind Rocha e Saulo Pereira de Mello. Passou a circular, até mesmo no formato VHS. Mesmo em cópias inadequadas, foi divulgado e voltou-se a falar dessa obra polêmica, para muitos o maior filme do cinema brasileiro em toda a sua história.

Todo grande filme (e até mesmo os pequenos, por que não?) merece circular em cópias perfeitas. No caso de Limite isso é essencial em função da beleza da fotografia de Edgard Brasil. É essa dança de luz que dá sentido a um filme estranho, sobre náufragos da existência, sobre o limite de todos nós.

(Caderno 2)

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