A magia de Cantinflas
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A magia de Cantinflas

Luiz Zanin Oricchio

23 de outubro de 2014 | 10h13

 

Cantinflas – a Magia da Comédia, de Sebastián Del Amo, não tenta ser uma cinebiografia completa de Mario Moreno, o célebre cômico mexicano.

Tem, como ponto de partida, o jovem pobre que descobre no talento humorístico a forma de escapar à miséria. E, como chegada, a filmagem de A Volta ao Mundo em 80 Dias, com Michael Todd, que lhe garante um Oscar e a fama universal.

Depois desse sucesso baseado na obra de Julio Verne, no qual Cantinflas faz o personagem de Passepartout, sua carreira ainda teria muito chão pela frente. O filme é de 1956 e tem David Niven como o aventureiro Phileas Fogg e Cantinflas como seu esperto valete, Passepartout. Mario Moreno morreria apenas em 1993, com a idade de 81 anos, mas, de fato, esse é o seu ápice, pela dimensão do sucesso.

Essa opção permite a Del Amo examinar o fenômeno Cantinflas do nascimento do personagem à consolidação, passando por suas etapas intermediárias. A saber, as primeiras tentativas, a passagem pela escola do teatro de variedades, o cinema, o sucesso local, o casamento duradouro e tumultuado com Valentina Ivanova, as armadilhas da fama e o reencontro consigo mesmo. É uma vida completa, essa que vai do anonimato à glória.

O ator que interpreta Cantinflas, Óscar Jaenada tem carisma e se parece fisicamente com Mario Moreno. Esse é um dos problemas que tem o cinema ao lidar com rostos muito conhecidos. Ou se aceita a convenção de que aquilo tudo é uma reinvenção, e os atores não precisam necessariamente se parecer aos personagens retratados, e firma-se esse pacto com o público, ou busca-se a semelhança quase perfeita com a figura pública real, tal como a de Morgan Freeman com Nelson Mandela. Neste caso, o ator que representa Cantinflas se parece muito a verdadeiro cômico; já os outros personagens, não. O caso mais gritante é o de Charlie Chaplin, que não se parece nada ao criador de Carlitos.

Pode-se também dizer que, embora informativo e divertido, Cantinflas – a Magia da Comédia poderia ser um pouco mais sofisticado, ou mesmo mais caprichado do ponto de vista cinematográfico. Não é por representar um artista popular que um filme pode se permitir o desleixo cinematográfico como aparece em certas passagens. Além do mais, mesmo limitando-se no tempo, o longa deixa de explorar temas centrais na trajetória de Mario Moreno, a principal delas, o estabelecimento do personagem Cantinflas. Esta é apenas intuída, insinuada, quando deveria ser o próprio núcleo de uma homenagem crítica ao ídolo.

Feita desta forma, a figura de Cantinflas, embora recuperada, ainda permanece um tanto envolta em trevas para o público. Fica o mérito, em todo caso, de haver restituído a memória deste que foi um dos reis indiscutidos da comédia popular, admirado pelo próprio Chaplin, e que esteve meio esquecido nos últimos anos. Só por realizar esse trabalho, ainda que de forma parcial, Cantinflas – a Magia da Comédia se justifica.

 

Cantinflas, o personagem

 

Fortino Mario Alfonso Moreno Reyes (1911-1993) é figura nacional no México e não sem motivo. Mario Moreno, ou Cantinflas, tipo que cria e se torna seu nome verdadeiro, é um protótipo do herói nacional dos povos periféricos. Alguém vindo da miséria, que alcança a fama, torna-se rico e universalmente conhecido, mas  não volta as costas para suas origens.

Cantinflas é um herói dos pobres. O tipo  criado por Mario Moreno  é o homem simples, até rude, e que, pela astúcia, inteligência natural e malícia, consegue impor-se aos ricos, aos poderosos, aos mais bem educados formalmente do que ele.

Esse tipo popular é um arquétipo, que assume muitas formas e rostos ao longo da História – dos malandros Ascilto e Giton, do Satyricon de Petrônio, o Lazarilho de Tormes (narrativa anônima do século 16), Macunaíma, de Mario de Andrade, o Jeca de Mazzaropi, João Grilo do Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna e, claro, o modelo maior de Mario Moreno, o genial Carlitos de Charles Chaplin.Ao esculpir e dar forma a esse personagem, Mario Moreno entra para a história da comédia, essa grande arte popular tão maltratada em nossos dias.

A inspiração de Cantinflas em Carlitos é notória. O tipo físico, o chapeuzinho, a roupa apertada, os sapatos grandes demais até mesmo o andar e alguns trejeitos. São estranhas figuras, que ganham harmonia pela desproporção das formas. Paradoxos ambulantes, que tinham tudo para dar errado e acabando dando certo.

Mas não se trata de cópia. Mario Moreno recicla o personagem de Chaplin e lhe dá sotaque e personalidade mexicanas, desenvolvidas ao longo da maioria dos seus 55 filmes. Ao dotá-lo de qualidades tão locais, torna-o universal, como acontece com todos esses grandes malandros da literatura e do cinema.

No Auto da Compadecida, Satanás pede a condenação de João Grilo por seu excesso de malícia, mas Nossa Senhora o defende com a frase lapidar: “A esperteza é a coragem do pobre”. Deve ser por isso que nos divertimos com esses tipos e, pela mesma razão, nos comovemos tanto com eles.

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