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A Luz do Tom, o filme

Luiz Zanin Oricchio

09 Fevereiro 2013 | 17h01

Ninguém diga que não há cinema em A Luz do Tom. Nelson usa imagens de Tom Jobim de um antigo programa gravado na TV Manchete. Apenas trechos e mal conservador numa VHS doméstica. Isso porque a emissora, já mal das pernas gravou qualquer coisa por cima do programa e tudo se perdeu. As imagens foram garimpadas por Nelson da gravação doméstica do jornalista Chico Pinheiro, que as havia conservado.

A estas primeiras impressões nostálgicas, segue-se uma panorâmica aérea de praias desertas, evocando a bucólica Ipanema dos anos 30 e 40, quando não havia edifícios e pouca gente ia à praia. Foram tomadas em Florianópolis. Registro aéreo, deslumbrante, do “ponto de vista do urubu”, a ave que mais fascinava Tom, por causa do seu voo majestoso.

Muita música aqui também, mas desta vez entremeada por depoimentos. Da irmã, Helena Jobim, e das ex-mulheres Thereza Hermanny e Ana Lontra.

De Helena, as recordações de infância e juventude. Do garotão da praia, que se descobre pianista e músico. Através de Thereza, o filme evoca essa primeira fase de criação de Tom, a mais poderosa, talvez. Ela conta a história do casamento, de como um insinuante e jovem Tom Jobim, ainda mais esportista do que músico, a abordou numa praia e como foi difícil levar adiante o namoro diante de um pai conservador como era o dela. Por fim se casaram e foram morar na casa da família, sempre cheia de gente e de parentes. Simplesmente porque Tom, em início de carreira, não tinha dinheiro para alugar casa própria. Por isso, quando já famoso, quando ele dizia, gaiato, que precisava ganhar um dinheirinho para pagar o aluguel, sabia do que estava falando.

O depoimento de Thereza é o mais fluente e interessante. Sereno, também. Fala muito do lado pessoal, mas também esclarece sobre o modo de criação de Tom. De como ele por vezes se esquecia de uma linha melódica surgida e como apelava para a memória da esposa. Ela explica que, para ele, melodia e harmonia surgiam juntas. E também desapareciam da mesma forma. Como a memória dela era mais para a melodia conseguia ajudá-lo a se lembrar. Conta também que brigava muito com alguns parceiros, como Newton Mendonça, morto prematuramente. “Mas como o resultado era muito bom compensava”. Entre outras joias, os dois fizeram juntos Desafinado e Samba de uma Nota Só. É pouco?

Sem ter o encanto do filme anterior, A Luz do Tom funciona como um complemento informativo ao primeiro, totalmente sensorial. A verdade é que as três mulheres concorrem para formar o retrato multifacetado de Tom. De Helena, vem a infância e os anos de formação. De Thereza, os primeiros anos como músico, o estudo árduo, e o sucesso repentino. E de Ana, o Tom da maturidade, e do contato aprofundado com a natureza.

Escapando da rotina dos depoimentos, Nelson trabalha visualmente com o universo de Tom Jobim. São presenças constantes na paisagem as praias, o mar, a mata, as árvores, o voo do urubu – o pássaro soberano quando está no céu e feioso em terra. Nelson conta uma história deliciosa a esse respeito. Vários cineastas tentavam fazer um documentário sobre Tom Jobim, depois que ele se tornou uma unanimidade nacional. A cada um que o procurava, Tom perguntava: “Mas você sabe filmar um urubu no vôo?” Senão, nada feito, ria o maestro às gargalhadas.

Nelson pegou o touro à unha, ou melhor, o urubu em pleno voo e concebeu um filme quase de um ponto de vista aéreo, de um pássaro livre. Daí que a presença das aves não é apenas uma referência plástica ao universo do músico, mas uma concepção do filme. Da mesma forma, a presença da água, sob a forma de regatos, fontes e o ruído tranquilizador que entra como componente da trilha sonora. A Luz do Tom é também um filme muito táctil em sua concepção fotográfica, mas incorpora os sons da natureza junto com a música em sua concepção de linguagem cinematográfica.