A Luz do Tom: entrevista com Nelson Pereira dos Santos
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A Luz do Tom: entrevista com Nelson Pereira dos Santos

Luiz Zanin Oricchio

07 Fevereiro 2013 | 20h02

 

Em A Música Segundo Tom Jobim, Nelson Pereira de Santos usava apenas a arte do maestro Antonio Carlos Jobim para mostrar sua importância para a cultura brasileira e mundial. O filme era imagem e som. Neste A Luz do Tom, que entra em cartaz amanhã, quem complementa o retrato do maestro são três olhares femininos muito especiais: o da irmã Helena Jobim, e das ex-mulheres Thereza Hermanny e Ana Lontra Jobim.

São elas que falam de Tom na infância e juventude (Helena), no início e auge da carreira (Thereza) e em sua fase final (Ana Lontra). Três olhares femininos, que descrevem muito bem a história do nosso mais importante compositor moderno. A Tom devemos obras-primas como Chega de Saudade, Desafinado, Matita Perê, Águas de Março, entre as muitas outras obras que tornaram nossa existência melhor, mais inspirada e  amena. A Nelson, devemos esse retrato em duas faces, que faz jus à grande figura de Tom.

São artistas de mesmo porte. Aos 84 anos, Nelson é nosso mais importante cineasta, pai do cinema brasileiro moderno. Em 1955, temperou a versão brasileira do neorrealismo italiano com o seminal Rio 40 Graus. O filme abriu caminho para o nascimento do Cinema Novo, movimento ao qual se incorporou (“Fui cooptado”, brinca). Membro do Partido Comunista, fez forte denúncia da miséria do Nordeste com Vidas Secas, adaptação do romance homônimo de Graciliano Ramos. Na época da ditadura, driblou a censura com filmes alegóricos como Quem É Beta? e Como Era Gostoso meu Francês. Dirigiu o filme da abertura política, Memórias do Cárcere, também de Graciliano, e adaptou Jorge Amado (Jubiabá, Tenda dos Milagres). Documentou a vida de pensadores fundamentais como Sérgio Buarque de Hollanda e Gilberto Freyre e, por fim, chegou a Tom Jobim. Eleito em 2006 para a Academia Brasileira de Letras, Nelson sente-se feliz como um garoto. E cheio de planos, conforme contou no bate-papo divertido e informal com o Estado.

Nelson, você poderia falar da diferença do primeiro filme para este?

A ideia inicial é para fazer um filme, acabamos fazendo dois. Foi como o Sergio Buarque, era para ser um, foram dois. Num colocamos as ideias do Sérgio, noutro, as relações familiares. Aqui é a mesma coisa. Se fossem os amigos do Tom ou os parceiros do Tom seria um filme quilométrico. Então eu pensei em três pessoas que viveram a intimidade do Tom. A irmão, na infância, e as duas esposas, a primeira e a segunda, Tereza e Ana Lontra. Elas toparam fazer e assim foi feito. No primeiro, a ideia que eu e a Miúcha tivemos ia ser em três atos. Temática da criação do Tom. Rio de Janeiro, as mulheres e a natureza. Quando a gente foi examinar o material foi difícil aplicar o que havíamos pensado.

Este é mais tradicional.

Três pessoas que tem doutorado em Tom Jobim (risos). Memória do ato de criação do Tom. E outras adjacências, em especial a Tereza, que é muito divertida. Não cabe tudo no filme. Somos muito limitados. Temos 90 minutos se queremos que o filme seja exibido. Quem manda no mundo é o dono do cinema.

Não adianta chegar com quatro horas de filme…

Eu tenho a experiência. Memórias do Cárcere tinha mais de três horas. Cortaram, cortaram, cortaram…

Como é a experiência com seus filmes no exterior?

Eu tive uma retrospectiva em Harvard, passaram 12 filmes meus. O único que não quiseram passar foi Amuleto de Ogun…Acharam muito estranho.

Por quê?

Eles são protestantes (risos). Mas foi sensacional. E o Fome de Amor fez o maior sucesso. Engraçado. Tinha sido exibido antes, mas depois não mais. Quando ele começa, no Central Park, com maconha e paz, a Guerra do Vietnã rolando. Quando eu fui fazer esse filme, era  um romance do Guilherme Figueiredo, irmão do presidente Figueiredo. Guilherme era gente fina. Mas a história é muito boba. Uma moça pianista, que vai fazer um concurso de piano em Paris, se apaixona por um maestro e eles viajam, uma história assim. Eu tinha ganhado uma bolsa de estudos nos Estados Unidos, dois meses para fazer o que eu queria. E era a Guerra do Vietnã. Eu pensei, o filme tem de ser aqui, que Paris, nada.

Por que fazer uma parte do filme em Santa Catarina?

Foi uma ideia do Paulo Jobim. Porque as praias de Santa Catarina lembram as praias do Rio dos anos 1930, que não existem mais. Nos anos 50, Ipanema era um casario ainda, com trilhos de bondes. E essas praias estão preservadas em Santa Catarina, em Florianópolis, na Joaquina, e outras. Tem a mata. O Rio de Janeiro era isso, ninguém acredita.

Elementos dominantes no filme, a mata, a água, e o urubu. Nunca um urubu foi tão bem filmado como neste filme (risos)…

O Tom tinha mania de urubu. Você sabe que o Instituto Tom Jobim fica no Jardim Botânico, no Rio. Ele falava com eles. Cultivava esse negócio de urubu. Então, o primeiro teste que ele fazia era esse como você filmaria um urubu. Ele fazia esse teste, de sacanagem. O livro que ele fez com a Ana, ele conhecia a origem do urubu, raças, nações de urubus. O Paulinho conta que às vezes eles estavam de carro e o Tom via um urubu e ia atrás, esquecia o que ia fazer na cidade. Era uma mania. Passarinho, planta, essas coisas. Helena mitifica, tal. Mas o Paulo conta uma coisa engraçada. Ele dava uns tirinhos nos passarinhos também (risos).

Fez um disco chamado Urubu

Lindo, Saudades do Brasil tá lá. Eu choro quando ouço. Em Brasília 18% eu uso essa música também.

Muitas tomadas aéreas para dar ideia dessa da grandeza da natureza.

Foram feitas por uma fotógrafa maravilhosa, Maritza Caneca. Parenta da mulher do Tom, da Ana, prima, uma coisa assim. A conheci quando fiz o programa com Tom Jobim na Manchete. Era uma jovenzinha, já ajudava na filmagem.

Você tinha ideia do sucesso de público e crítica do anterior, A Música segundo Tom Jobim?

Não tinha não. A gente fez só algumas cópias em 35, as outras em digital, mas nem sempre os cinemas estão equipados para o digital. Pensamos que não ia dar público nenhum, que era muito poético. Deu 80 mil espectadores. Teve reações incríveis. Um acadêmico, colega meu na Academia Brasileira de Letras, o Ivanildo Bechara, o negócio dele é léxico e tal. Ele é todo assim, homem-dicionário, da gramática. Um dia toca o telefone e ele se identifica: “É o Bechara!” Fiquei preocupado, será que errei alguma frase, uma concordância? Sabe o que ele me disse? “Nelson, assisti ao filme, quando acabou o público ficou em pé batendo palmas e eu junto com ele, emocionado. Eu precisava contar isso a você”. Recebi um telegrama, quero dizer, um e-mail do Chico Buarque, dizendo que também ficou tocado com o filme. Tudo isso é muito gratificante.

Os elementos do filme. Você falou só do urubu, mas também tem muita água, o mar, os regatinhos, as fontes…

A ideia da narração, a fluência, a memória é um regato. Basicamente o Tom era um ecologista mesmo, não ecochato. A imagem dele pescando, com cigarrinho, não era um ecochato. O Tom era muito engraçado, grande contador de história. Esse amor à natureza vem do Tom, eu coloco no filme simplesmente, e procuro seguir na minha vida também, sempre que possível. Fui escoteiro do mar (risos). Sendo paulista, ser escoteiro do mar era uma coisa difícil. Íamos no canal da Bertioga, acampávamos. Eles tinham um sítio na região serrana, onde ele compunha…

Tem lá aquela história da canção Águas de Março. Conte aí.

Então, ele estava compondo Matita Perê, que é uma música muito complicada e tinha empacado, não saía do lugar. Não avançava. Então foi ficando com raiva, e começou a cantarolar, “É pau, é pedra…” Sabe por quê? Ele estava irritado, tinha uma obra na estrada do sítio, cheio de pau e pedra para tudo Acabou saindo Águas de Março, um dos grandes sucessos dele. Ah, assim eu vou chorar de saudades dele…Que figura genial.

Como surgiu o projeto desses filmes sobre Tom?

Tenho uma relação antiga com a família;  Paulo Jobim fez a música de Cinema de Lágrimas e Brasília 18%. Pensamos em fazer, a ideia veio do Marcos Altberg. Mas não foi a primeira vez. Ouça essa história. Eu fui professor convidado na UCla, na Califórnia. Produtor queria fazer um filme do Chico Mendes, era o Bob Redford. Mas os direitos já tinham sido vendidos. E outro diretor (John Frankenheimer). Surgiu a ideia de fazer a vida do Tom Jobim. Eu fui mostrar ao Tom. Ele ficou meses pensando. Leva pro teu advogado em Nova York, mas ele não topou, ficava com vergonha, era muito cioso da figura pública dele. Foi muito criticado.

Projetos para a frente?

Eu vou fazer a cinebiografia de Dom Pedro II, a partir do livro do José Murilo de Carvalho. Meu colega de fardão. Estamos na fase de captação. Agora, você sabe quanto tempo a Biblioteca Nacional levou para registrar o roteiro? Um ano! Não é brincadeira não. Muita burocracia. No dia 15 de novembro de 1989, o imperador Pedro II e sua família encontram-se aprisionados no Paço Imperial por militares que estão instituindo a República no Brasil. O Pedro tem duas linhas de memória: tudo o que foi feito para acabar com a escravidão do Brasil. Ideias inculcadas por José Bonifácio, que foi seu tutor. Em 1823, acabar em dez anos. Levou 50. Era um liberal, europeu, avançado. Criou a colônia anarquista, a Colônia Cecília. Essa é um lado; o outro, uma mulata genial, a Condessa de Barral, baiana casada com um conde francês. E que foi preceptora das filhas de D. Pedro.

Toda a sua trajetória é no Brasil. Você nunca pensou em fazer carreira no exterior, como alguns colegas mais jovens?

Fiz dois filmes com produção com a França. Tive alguns convites nos Estados Unidos. Uma vez me deram um roteiro, quase topei. Filme policial, um pianista, apaixonado, por quem? Tom Jobim. O sonho era ir para o Rio e conhecer Ipanema. Roteiro de um americano. Aí aparece a oportunidade de ele embarcar como músico num navio, que vai para o Rio e ele topa. Só que na viagem começa uma bandidagem, tiroteio, etc. Aí eu vi que não dava e não topei.

Houve uma fase sua de filmes mais “delirantes”

A tendência era fazer um cinema mais alegórico para escapar da censura. O problema é que a gente se autocensurava demais. A censura não entendia e nem ninguém (risos). O final do Fome de Amor é um discurso do Che Guevara: o dever de todo revolucionário é fazer a revolução. O produtor do filme, o Paulo Porto, o ator, foi à censura. Ele conseguiu o seguinte. Sem legendas, podia, está em espanhol. Outro censor falou: “E também quem é que vai ver essa merda de filme?” O filme tem uma dupla interpretação. Amigos e amigas do Partidão Comunista, diziam que era isso mesmo. De outro lado, eu estava ridicularizando a área que queria fazer a revolução de qualquer jeito. Porque o Partidão ficou conservador: a revolução ia chegar com o amadurecimento das forças revolucionárias. Os outros estavam propondo o levante imediato. E muitos jovens foram sacrificados em movimentos suicidas. O filme tem esse lado, essa crítica. Visão crítica dos movimentos de esquerda. Fez muito sucesso nos Estados Unidos.

Na Europa, se fala muito em Como era Gostoso meu Francês. A que você atribui isso?

Ah, tem muita mulher pelada (risos). Mas tem homem pelado também. Esse filme deu trabalho. Foi muito exibido na televisão, na Alemanha, nos Estados Unidos. É o mais vendido e depois o Vidas Secas, na área de literatura, ciências sociais.

Lembre um pouco o tempo do Cinema Novo. Você tem uma frase que dizia que o Cinema Novo era o  Glauber…

Ele criava o movimento. Depois cada um seguia o seu caminho. Todo movimento é importante para embalar, depois cada um vai para o seu lado. Com a nouvelle vague foi assim também. Truffaut e Godard fecharam o Festival de Cannes em 1968, depois viraram inimigos. Foi cada um pro seu lado, é assim mesmo. Naquele momento, o Glauber inventava o Cinema Novo. Num encontro do cinema brasileiro em Milão, eu fui cooptado pelo Cinema Novo, me chamaram. Toda a minha formação, a minha raiz básica é o neorrealismo italiano. Eu também fui cooptado.

Quais são suas tarefas na Academia Brasileira de Letras

Eu, como acadêmico tenho de escrever um livro. Eu só fui admitido porque tenho meus roteiros. Três Vezes Rio (Rio 40 Graus, Rio Zona Norte, El Justicero). Já estou escrevendo minhas memórias. Já está adiantado. Os outros roteiros também precisam ser editados. O meu livro de memórias é tudo junto, histórias, memória, reflexão.

E como é seu dia a dia na Academia?

Maravilha. A Academia é muito harmônica. É um grupo bom, já de certa idade, né (risos)? Relações muito refinados. Papo muito agradável. Livros, poesia, romance. Filmes, etc. Eu dou graças a Deus por estar lá, porque eu saí do gueto do cinema. Nesse gueto, a conversa é muito chata, leis de incentivo, o exibidor que não liga para nossos filmes, todas as questões políticas do cinema, a gente fica muito isolado, são importantes, mas só isso na vida não dá, não é? Voltei a ler poesia, que eu não lia desde o tempo da Faculdade do Largo São Francisco! Leio Sechin, Ledo Ivo, Ivan Junqueira. É outra sensação. Só lia livros de cinema, de leis de incentivo. Prá que? A gente aprendeu a ler foi prá ter prazer também, não, não é para se castigar.

Mas como é a rotina?

Duas vezes por semana. Na terça, tem uma palestra ou uma mesa redonda às 17h30. Um ou dois acadêmicos fazendo palestra. Na quinta, é a reunião interna, das questões da Academia e há sempre, dentro dessa reunião, há a efeméride, com alguém lembrando a obra de um acadêmico do passado. É interessante. Meia hora, 40 minutos de palestra, lembrando a obra, a importância. A Academia é uma senhora empresa. Tem a sua própria economia, que é respeitável. Na sexta, eu faço o cineclube. Programação, aluguel de filmes e projeção de filmes, palestra com o diretor.

São 60 anos de carreira. O que resta para fazer?

Ah, falta muita coisa ainda.

 

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