A longa noite americana
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A longa noite americana

Pela história da prisão de Pepe Mujica e dois companheiros durante o regime militar uruguaio, Uma Noite de 12 Anos mostra que o pior que pode acontecer a um país é tornar-se uma ditadura

Luiz Zanin Oricchio

30 Setembro 2018 | 23h39

Como uma sociedade se auto-destrói? Perfurando o tênue verniz civilizatório que permite a todos nós conviver com os diferentes. Quando isso acontece, nas ditaduras, soltam-se os demônios e a pulsão de morte impera. Pensamos nisso ao ver este extraordinário Uma Noite de 12 Anos, do uruguaio Álvaro Brechner.

Como se sabe, o filme narra o longo martírio de um trio de guerrilheiros tupamaros nos cárceres da ditadura uruguaia (1973-1985). Presos, José Mujica, Mauricio Rosencof e Eleutério Fernández Huidobro viveram por 12 longos anos em isolamento, sob tortura, em condições miseráveis e sem contato com o mundo exterior. Esperavam ser mortos a qualquer momento.

Cada qual teve sua estratégia de sobrevivência em situação tão penosa. Por exemplo, Mujica (Antonio de la Torre) voltou-se para o mundo interior, a ponto de ser diagnosticado como esquizofrênico por uma psiquiatra. Rosencof (Chino Darín) conseguiu certo alívio escrevendo cartas de amor que seu carcereiro endereçava a uma namorada.

Enquanto viviam sua miséria, nem eles e muito menos seus torturadores poderiam imaginar que um deles se tornaria escritor famoso (Rosencof), outro chegaria a ministro de Estado (Huidobro) e, o mais conhecido dos três se tornaria presidente do Uruguai (Pepe Mujica).

Neste filme fala-se muito pouco em ideologias antagônicas ou em lutas políticas. Concentra-se mais na estupidez sádica que emerge nas sociedades em situações ditatoriais. E na incrível resistência que levou esses três homens a sobreviver em condições tão desumanas que, nelas, o mais sensato seria morrer logo de vez.

O filme é simples e complexo ao mesmo tempo.

Simples, porque é apenas isso mesmo: quando uma sociedade perde suas garantias democráticas, tudo pode acontecer. A qualquer um, de opositores a inocentes úteis e até a quem, de maneira ingênua, pede a volta do regime militar sem ter a mais remota ideia do que isso significa.

Complexo, porque entra na esfera mental de cada prisioneiro e registra em imagens o mundo de fantasias que criam como patética estratégia de escapar a uma realidade tão cruel que é quase inimaginável.

O filme é uma advertência a todos nós. Em especial àqueles que brincam com fogo ou dão uma de aprendizes de feiticeiros. Como se sabe, depois de libertar o gênio do mal, é muito complicado fazê-lo entrar de novo na garrafa.