A linha do tempo de Irma Vep 
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A linha do tempo de Irma Vep 

Luiz Zanin Oricchio

14 de junho de 2022 | 19h48

O cinema vai reciclando as coisas, não necessariamente para o mal. Em 1986, Olivier Assayas dirigiu o longa-metragem Irma Vep, baseado na série histórica Les Vampires, de 1915-1916, de autoria de Louis Feuillade (1873-1925). Agora o mesmo Assayas assina sua série, na HBO MAX, inspirada em seu próprio filme. E assim o mundo gira. 

A série de Feuillade fez grande sucesso em seu tempo. Era a versão em cinema do folhetim, gênero que brilhara nos jornais do século 19, com autores como Balzac e Dumas. Feuillade trabalhava a todo vapor, pois os episódios, de cerca de 40 minutos cada, deveriam ser exibidos semanalmente nas salas de cinema. Nos jornais, saíam notícias diárias sobre o andamento do trabalho, no qual Feuillade exprimia sua imaginação febril. Era conhecido por realizar, para a Gaumont, séries como Barrabás, Judex e Fantômas, este um gênio do crime que encantou gerações e seduziu intelectuais. O próprio Julio Cortázar tem um livro baseado na história desse personagem. Em seu dicionário de cineastas, Jean Tulard contabiliza cerca de 800 obras no portfólio de Feuillade. 

A história de Os Vampiros pode ser resumida nos esforços do jornalista Philippe Guérande (Édouard Mathé) para  liquidar uma quadrilha que apronta todas e desafia a polícia francesa. A série é composta por 12 episódios. Uma versão de quase sete horas e qualidade razoável (em tela pequena) pode ser encontrada no Youtube. 

Consta que Les Vampires (Os Vampiros) foi mal recebido pela crítica. Inclusive por patronos da escrita cinematográfica, Louis Delluc e Ricciotto Canudo. No entanto, quem se encantou com a série de Feuillade foram os surrealistas, que, diga-se deles o que se quiser, sempre tiveram mente mais aberta que seus contemporâneos, em especial os do meio artístico tradicional. A atriz principal de Os Vampiros, Musidora, com o corpo modelado no traje negro de sua personagem, era chamada por Aragon de “a décima musa”. O termo “vamp”, como sinônimo de mulher fatal, vem dela, a primeira Irma Vep. Diz-se que inspira os trajes de Batman e Mulher-Gato. Pode ser. Tudo se recicla. 

Retomando a personagem de Musidora em 1986, Assayas aproveita a história para fazer uma reflexão sobre o estado do cinema naqueles anos. O papel que fora de Musidora na série de Feuillade é agora da chinesa Maggie Cheung, com quem Assayas era casado na época. O que temos é um filme dentro de um filme. Um diretor problemático, René Vidal (Jean-Pierre Léaud) tenta refazer a obra de Feuillade nos anos 1980, retomando a tradição popular do cinema francês. Por algum motivo, “importa” uma atriz chinesa e tenta impor a ela o que sentia na direção de Feuillade – um certo distanciamento, um “não-interpretar” que, para ele, como para Bresson, seria o suprassumo da arte cinematográfica em sua fase silenciosa. (Nota: o cinema mudo, ou silencioso, é um fetiche entre muitos cineastas).

Sente-se aqui a ressonância da história do cinema num diretor como Assayas, que foi também crítico dos Cahiers du Cinéma, da mesma forma que seus antecessores da nouvelle vague. A escolha de Léaud, ator emblemático da nouvelle vague para o papel do cineasta René Vidal, tampouco é gratuita. Léaud foi alter ego de Truffaut desde seu primeiro trabalho em Os Incompreendidos (Les Quatre-Cents Coups) e o seguiu vida afora como Antoine Doinel,  nome do seu personagem por vários filmes. 

Enfim, é o cinema dobrando-se sobre si mesmo para comentar-se e refletir sobre seu próprio desenvolvimento, como gostam de fazer os críticos quando viram cineastas. Resta dizer que o Irma Zep de 1986 (disponível na MUBI) é bastante satírico e divertido. Inclusive na substituição do cineasta Vidal, que teve uma crise nervosa, por outro, José Mirano (Lou Castel), cujo primeiro ato é trocar a atriz chinesa por uma francesa. “Les Vampires é Paris, Arlety, o basfond da cidade, não tem nada a ver com uma chinesa”, desabafa. 

A releitura de Assayas de sua própria obra desloca o campo. Alguns atores, como Alex Descas, passam do filme à série. A protagonista agora é a sueca Alicia Vikander, no papel da norte-americana Mira, dirigida por um cineasta ainda mais louco que aquele interpretado por Léaud, agora vivido por Vincent Macaigne (da série Dix Pour Cent). A exemplo do que ocorre no filme, Macaigne, como René Vidal, tem antecedentes que não o recomendam como ser humano estável. A empresa seguradora hesita em fazer a apólice da produção. Tem suas razões. Vidal, em uma filmagem anterior, tentou atropelar o ator principal e, em outra, urinou sobre mobiliário de época alugado pela direção de arte. 

A aposta é mesmo na comédia, com inteligência, reflexiva. Os dois primeiros episódios, únicos ainda disponíveis na HBO MAX, são promissores. Indicam o caminho não de um remake mas da continuação do filme de 1986. A plataforma não disponibiliza a série completa de uma vez. Sai um episódio por semana. Como nos tempos de Feuillade. 

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