A lição de Barry Lyndon
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A lição de Barry Lyndon

Luiz Zanin Oricchio

07 de abril de 2012 | 11h58

 

Nesta Semana Santa me dei um presente. Revimos, Rô e eu, Barry Lyndon, de Stanley Kubrick. Três horas e pouco de grande cinema.

Nem vou falar dos planos magníficos ou da fotografia, das noturnas à luz de vela, pura pintura inglesa do século 18. Alguns críticos (Pauline Kael, em especial) consideram o filme “um bloco de gelo”. Causa pasmo, essa afirmação. A emoção está lá, só que refreada. Não poderia ser de outra forma.

Fui prestando atenção ao ritmo. Sentindo o ritmo. Assistir ao filme, às peripécias do personagem e, depois, à sua decadência, era como navegar num grande rio. Navegar em mar calmo, sem terra à vista. Perder-se no fluxo da própria vida, suas grandezas, suas pequenezas, sua hipocrisia, suas tolices, sua finitude. O filme é um devir.

Barry Lyndon é baseado no romance de William Makepeace Thackeray (1811-1863), sobre o qual Otto Maria Carpeaux diz que “Não faltava muito para colocar-se entre os grandes da literatura universal: poucos reuniram, como ele, o espírito específico de uma nação e de uma época e o espírito livre, aberto aos problemas permanentes e aos problemas novos. Os defeitos que o afrouxaram são os de Macaulay: o moralismo e o caráter livresco do seu talento”. Na mosca, como sempre, Carpeaux.

No romance, um folhetim na verdade, o narrador é o próprio personagem. Ele escreve suas memórias no fim da vida, na prisão onde está encerrado, em Londres. É uma autojustificação. O narrador, portanto, é suspeito. Kubrick optou por uma narração off em terceira pessoa, uma voz que se sobrepõe à ação e muitas vezes antecipa o que está por vir. Um véu de fina ironia cobre esse processo que, ao fim e ao cabo, é de distanciamento.

Talvez Kubrick tenha se sentido tentado a dar forma a essa prosa “um tanto livresca”, mas seu sentido visual apurado, seu perfeccionismo e sua profundidade mental fazem da versão cinematográfica uma obra-prima indubitável, a meu ver.

Havia visto o filme na época do lançamento (1975) e não o levei muito em consideração, sabe-se lá por quê. Esqueci-o quase por completo. Um ou dois planos sobreviviam na memória. O jogo de cartas à luz de velas. O passeio de barco no lago. A geometria dos jardins do palácio, talvez. Mas o todo me escapava. O sentido geral perdia-se.

Recuperei-o agora. Há obras que se revelam somente na maturidade.

E sim, há o grand finale, sobre a finitude humana, a magnífica frase final, que transcrevo abaixo, no original e na tradução. Vale por toda uma mensagem de Páscoa.

“It was in the reign of George III that the aforesaid personages lived and quarreled; good or bad, handsome or ugly, rich or poor, they are equal now.”

Ou:

“Foi no reinado de George III que estes personagens viveram e brigaram; bons ou maus, bonitos ou feios, ricos ou pobres, agora, eles são todos iguais.”

Boa Páscoa.

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