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A Leste de Bucareste: ensaio de humor sobre o mito e a verdade

Luiz Zanin Oricchio

24 Março 2007 | 20h28

Entrou em cartaz em São Paulo um pequeno/grande filme romeno, A Leste de Bucareste, que traz em seu currículo o prestigioso prêmio de Cannes, o Câmera d’Or, reservado a diretores iniciantes. O humor sutil, aliado à crítica política, são os ingredientes que dão liga – e força – ao filme do diretor Corneliu Porimboiu. O cenário, em tempo quase integral, é o estúdio de uma TV onde um programa, com participantes e linha aberta aos espectadores, debate assunto de transcendental importância – a derrubada de Ceaucescu foi causada pela mobilização popular ou esta só se aconteceu depois da fuga do ditador? A discussão, entre personagens que supostamente acompanharam de perto os acontecimentos, centra-se na dúvida de se às 12h08, hora da partida de Ceaucescu, a praça central de Bucareste estaria cheia ou vazia. O povo na praça foi um ato político de derrubada de um governo ou apenas uma comemoração?

Tudo se resume a isso: a dúvida sobre os testemunhos. Pode-se acreditar nos personagens, quando um deles, que afirma ter estado lá não foi visto por ninguém, outro estava bêbado num bar, ou com a namorada, e assim por diante? Versões sobre um fato histórico passado em 1989 e que depois virou mito. Um mito particular, convenhamos, mas decisivo na vida das pessoas. Em tom menor, esse filme se pergunta de que maneira escrevemos a história. Respeitando a verdade factual, ou inclinando-a segundo nossos desejos retrospectivos?

O grande trunfo de A Leste de Bucareste é que essa discussão política vem não sob a forma pesada do discurso, mas da ironia, humor sinuoso e inteligente. Por exemplo, o programa, já na fase pós-comunista ainda mantém o ranço da TV estatal, monótona, monocórdia, precária. O que ficou da época stalinista na Romênia pós-Ceaucescu? É o que parece se perguntar esse filme que mostra fé na existência de um espectador que goste desses temperos delicados e não apenas do fast food humorístico que costumam lhe servir. Bem, trata-se de uma aposta. Prudente, pois o filme estreou em uma única sala no Cine Belas Artes.