A Lenda do Santo Beberrão
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A Lenda do Santo Beberrão

Luiz Zanin Oricchio

10 de dezembro de 2012 | 13h26

 

Em 1988, Ermano Olmi venceu o Festival de Veneza com essa estupenda parábola cristã, A Lenda do Santo Beberrão. Na abertura do Festival de 2008, festejando os 20 anos do Leão de Ouro obtido, Olmi reapresentou seu filme, agora em cópia restaurada, no Campo de San Polo, no centro histórico de Veneza, na abertura simbólica do festival daquele ano.

Agora, o filme sai em DVD pela Lume. É uma ocasião de rever esse trabalho extraordinário, de um cineasta veterano (Olmi nasceu em 1931) e ainda em franca atividade. Há pouco, apresentou seu filme mais recente, La Città di Cartone (A Cidade de Papelão), em que, ainda uma vez, olha para os mais humildes, desta vez os imigrantes africanos numa Europa intolerante e fechada em si mesma. Olmi é uma reserva moral. E, por que não dizer, uma reserva cinematográfica, em tempos tão medíocres.

O personagem principal é vivido pelo holandês Rutger Hauer, de Blade Runner. Ele é o mendigo alcoólatra que vaga pelas ruas de Paris e dorme sob as pontes do Sena. Um dia, alguém lhe dá uma soma em dinheiro, 200 francos, com a condição de que deve restituir a quantia à igreja de Santa Tereza de Lisieux no prazo de uma semana. Andreas Kartak é o nome do homem, saberemos depois, e o personagem baseia-se no livro autobiográfico do escritor austríaco Joseph Roth. O relato amolda-se à perfeição às ideias de Olmi sobre o pecado, o arrependimento e a remissão. É, obviamente, um filme cristão, mas não carola. Trata de seguir, de maneira inesperada, um trajeto possível de iluminação.

A ideia é que o mendigo recebe o dinheiro, mas não como doação. É um empréstimo, cuja garantia é sua honra, talvez sua fé. Mas, enquanto ele o tiver em mãos, poderá recuperar sua dignidade. Na história, várias vezes Andreas tem a quantia e está decidido a restituí-la à santa, mas, de uma maneira ou de outra, algo acontece e ele não consegue fazê-lo. As situações se sucedem à maneira de uma parábola, sem um sentido realista obrigatório, na qual ele será confrontado com seu passado, inclusive com a mulher que foi causa indireta de sua desgraça atual.

O filme de Olmi é extremamente belo (ele é autor do extraordinário A Árvore dos Tamancos), mas nunca de uma beleza vazia. A estética, aqui, é colocada a serviço de ideias a serem discutidas, ou melhor, talvez: sentidas, uma vez que fé e iluminação não passam por categorias do discurso racional.

Desse modo, A Lenda do Santo Beberrão não é filme de proselitismo religioso. Ele trabalha com categorias do espírito, mas não as impõe à maneira de catequese ou de ameaça. Apenas sugere que existe alguma transcendência em qualquer vida, mesmo na vida miserável de um mendigo alcoólatra.

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