A juventude eterna de Mautner
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A juventude eterna de Mautner

Luiz Zanin Oricchio

31 Janeiro 2013 | 13h46

 

O documentário Jorge Mautner – o Filho do Holocausto já vem sendo testado em alguns festivais. Onde se deu melhor foi em Gramado no ano passado, no qual recebeu os prêmios de montagem, fotografia e roteiro. Agora, segue para a prova de fogo dos documentários, que é o circuito comercial. Tem tudo para se dar bem, guardadas as proporções de sucesso compatíveis com um documentário, mesmo se musical, o segmento que funciona melhor no Brasil. Somos um país musical, afinal de contas, e isso deve valer alguma coisa.

O retrato de Mautner, pintado por Pedro Bial e Heitor D’Allincourt, é tanto musical como cultural. O que é justo, dada a presença do personagem na vida de cultura do País que, em dada época, se confundia de maneira indissociável com a música e a questão política. Para simplificar, num primeiro momento pode-se dizer que Mautner foi, com colegas talvez mais famosos que ele, como Caetano, Gil, Mutantes e outros, um dos ícones da contracultura brasileira.

O documentário é hábil em conduzir a biografia do personagem, como se esta tivesse de desaguar, de forma inevitável, nessa figura emblemática dos anos 60 e 70. Filho de família judia fugida do nazismo (daí o subtítulo de Filho do Holocausto), com relações familiares um tanto complicadas no Brasil, fazendo com que a vida do menino se dividisse entre duas cidades (Rio e São Paulo) e dois pais (o natural e um padrasto) que, em dado momento convivem. Enfim, dá-se contexto tanto histórico como pessoal a este Jorge Mautner que seria parte importante do movimento contracultural brasileiro.

E este talvez seja outro trunfo do filme, comercialmente falando. Se podemos constatar que o engajamento político radical dos anos 60 caiu de moda como a calça boca de sino, deve-se reconhecer que a forma de contestação que o substituiu (já nos anos 70) continua em alta. Ainda soletra com clareza a sua poesia e é ouvida pela juventude contemporânea, uma vez que a rebeldia é uma espécie de esperanto do universo teen.

Daí a razão de sentirmos Caetano e Gil muito próximos, como se não tivessem atravessado os anos. E, de fato, não envelheceram; ou envelheceram bem, o que dá na mesma. São iguais aos jovens, apesar das cãs e óculos de leitura. Falam com eles no mesmo nível, às vezes com as mesmas gírias, e não como se recitassem uma sabedoria que só vem com a acumulação de décadas, rugas e cabelos brancos e que, no fundo, não serve senão aos velhos, já que os jovens preferem errar por conta própria. A rebeldia se situa mais na esfera da dúvida e da invenção do que na das certezas magistrais.

Se isso acontece com Caetano e Gil, acontece também com Mautner, que é índio da mesma tribo. E tanto são que estão juntos no único filme feito por Mautner, O Demiurgo,rodado em Londres em 1970, com sobras de negativo de Queimada, o clássico de Gillo Pontecorvo, segundo informa Pedro Bial. Vemos alguns trechos dessa obra underground, comentada na atualidade por seus atores, então jovens exilados em Londres. Todos cabeludos, todos malucos e alegres, praticando uma reviravolta de costumes que não se acomodava muito ao clima austero e verde oliva do Brasil.

Mas há Mautner. E sua trajetória pessoal na volta ao Brasil, na tentativa de levar uma vida “normal”, sem renunciar ao desbunde. A parte mais engraçada – e também reveladora –  é o encontro de Jorge com sua filha Amora, hoje ocupando alto cargo na Rede Globo, diretora de novelas como a badalada Avenida Brasil. Rola certa cobrança: “Você sabe que esse nome me trouxe problemas, não é?”. Claro, os pais descolados podem achar lindo chamar a filhota de Amora, que não é a fruta, mas o feminino de Amor, mas, como se sabe, crianças são implacáveis com a diferença e Amora sofreu na escola. Ela se queixa de que o pai andava nu pela casa e ia buscá-la de sunga na porta do colégio. Tudo isso é engraçado, nota-se que está bem assimilado (a custa de muita psicanálise, admite a moça), mas mostra também como não é fácil ser filho de maluco-beleza. Uma geração ousa tudo, testa limites e vai até a beira do abismo; a geração seguinte dá um passo atrás e fica mais careta. É assim mesmo. Procede-se por reação, como numa espécie de equilíbrio, um sistema de freios e contrapesos da natureza. Senão, onde iríamos?

O fato é que Mautner foi ponta de lança de uma geração que empurrou as coisas adiante. Forçou limites e, com certeza, pagou seu preço por isso. Sempre se paga. Dessa fricção, anda-se um pouco mais à frente. Mautner, como outros, é um desbravador de caminhos. Mesmo que o filme não entre em detalhes mais íntimos, adivinha-se uma vida de grande riqueza pessoal, ao lado da realização artística.

Isso é balanço do passado e a contracultura, que se colocou a contrapelo do “sistema”, foi assimilada, como tudo é mastigado e deglutido pela indústria do espetáculo. Mautner, assim, como Caetano e Gil, souberam usar a seu favor essa lógica que faz do contestador de ontem uma atração do domingo à tarde. Nesse sentido, os tropicalistas foram muito realistas em sua decodificação das leis de mercado.

Mautner fez shows, gravou discos, foi ao Chacrinha, fez e faz parte do show biz brasileiro. Maracatu Atômico é sua obra-prima, Encantador de Serpentes (“Sobe cobra, a cobra não quer subir…”) é engraçada, e Lágrimas Negras, tocante. Foram e são tremendos sucessos. Sua parceria com o violonista Nelson Jacobina (morto pouco depois de terminado o filme) é coisa para durar na memória.

Alguns raros, privilegiados, escolhem um modo de vida e de arte que os condena à eterna juventude. Caso de Mautner.

 

 

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