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A Istambul multifacetada de Orhan Pamuk

Luiz Zanin Oricchio

22 Maio 2007 | 16h10

O prêmio Nobel de Literatura, Orhan Pamuk, concede boa entrevista à L’Express. Pamuk, que tem dois dos seus livros já lançados no Brasil, Neve e Istambul, está na França, participando do júri do Festival de Cinema de Cannes. A primeira coisa que comenta, mas como para se desvencilhar das perguntas inevitáveis, é sobre o fato de ter recebido o Nobel. Com franqueza pouco usual, diz que o aspecto mais evidente que um Nobel altera na vida do escritor é a sua conta bancária. A segunda, é que ninguém mais lhe pergunta se alimenta a esperança de um dia ganhar a distinção mais badalada da literatura.

Dito isso, Pamuk confessa-se um inimigo dos agitos, das entrevistas e das grandes análises que a toda hora lhe pedem para fazer. ‘Por que um escritor é sempre convidado a expressar suas opiniões sobre política, como se fosse um especialista na matéria?’, pergunta. Pamuk sabe do que fala: vive, hoje, fora da Turquia, porque foi ameaçado por extremistas nacionalistas, após denunciar o genocídio de armênios e curdos em seu país.

Perguntam-lhe se pretende voltar um dia e ele responde que sim: jamais foi atacado por seus livros, mas por idéias que defende em entrevistas ou artigos para jornais. ‘Aqueles que me ameaçam não lêem meus livros’, diz. Como reage a essas ameaças? Sim, claro, tem medo de morrer, ‘mas não estamos todos nós condenados a morrer um dia?’

O melhor da entrevista é reservado à cidade natal do autor. Istambul é o título da sua autobiografia e, nesse caso, não se trata de banalidade dizer que a cidade é personagem do livro. Talvez mesmo personagem principal, de tal maneira a vida do escritor e sua cidade parecem interligadas.

Pamuk procura desconstruir os clichês associados a Istambul. É, de fato, uma cidade entre duas culturas, entre Ocidente e Oriente. Mas não concorda com o lugar-comum que define Istambul como um enclave europeu no Oriente: ‘Esse é um clichê turístico, de quem conhece apenas a parte da cidade habitada por 1 milhão de pessoas; ora, a população de Istambul é de mais de 10 milhões de habitantes, maior do que Nova York, e é composta por gente pobre, migrantes de todas as partes da Turquia; quer dizer, Istambul é uma cidade profundamente turca, digam o que disserem.’

Vida e cidade de tal forma entrelaçados dariam, se o escritor quisesse, uns dez volumes de texto. Mas Pamuk sabe que ‘a autobiografia é a arte de cortar, de proceder por elipses, escolher as cenas que devem ser conservadas na montagem e as que precisam ser rejeitadas; como no cinema’, diz. Qual o critério de conservação das cenas que entram na ‘edição’ final? ‘Guardei apenas os episódios que marcaram os momentos de abertura de meu espírito: para a arte, para o amor, para a política…’ Assim, Pamuk não pretende contar a história de uma cidade mas apenas ‘mostrar como Istambul teve uma influência determinante sobre a vida de um rapaz que queria se tornar escritor.’

O que não impede – e essa contradição é lembrada na entrevista – que a primeira vocação de Pamuk tenha sido a pintura e não a literatura. A pintura foi importante, ele retruca, mas apenas na medida em que o conduziu à literatura: ‘Percebi que escrever era, também, uma maneira de pintar.’