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A invenção de Straub e Huillet

Luiz Zanin Oricchio

17 de janeiro de 2012 | 08h27

Crônica de Anna Magdalena Bach talvez seja ainda a obra mais conhecida de Jean-Marie Straub e Danièle Huillet. Foi elogiada por Glauber Rocha, numa época em que o cinema tinha prazer em reinventar-se. Esse processo de criação contínua pode ser conferido na Mostra Straub-Huillet, que o CCBB realiza de 17 a 29 de janeiro. É composta de filmes dirigidos pela dupla, com exceção de alguns assinados apenas por Straub, como o episódio Streghe (Bruxas), do longa Entre Mulheres, o longa-metragem Joachim Gatti e mais alguns curtas como Um Herdeiro, Chacais e Árabes e O Inconsolável. Os outros todos são codirigidos. A parceria entre os dois vai de 1963, com o curta Machorka Muff, até Quei Loro Incontri, de 2006. Casaram-se em 1959 e ficaram juntos até a morte de Danièlle, em 2006.

Estabeleceram uma parceria bastante assimétrica e pouco nítida em termos da divisão do trabalho. No mundo do cinema dizia-se que Jean-Marie ocupava-se da produção e da filmagem, enquanto Danièle ficava com a montagem e a pós-produção. No entanto, tudo indica que colaboravam em todas as fases da filmagem, num verdadeiro processo de troca e simbiose artística. Parte do trabalho desse dueto pode ser visto no documentário Onde Jaz o Teu Sorriso, do português Pedro Costa, que acompanha o casal no processo de montagem de Gente da Sicília, inspirado no romance de Elio Vitorini. Nele, vemos que a sintonia do casal era conseguida após várias desafinadas conjuntas. Nenhuma surpresa: as discordâncias e visões distintas sobre a obra podem beneficiá-la.

De qualquer forma, o casal Straub-Huillet desenvolveu um estilo muito marcante, diferente de todos os outros. Trata-se de uma verdadeira assinatura autoral. Em geral descrita por palavras como “austera”, “rigorosa”, “despojada”. Tudo isso faz sentido. Usam planos longos, muitas vezes estáticos. Não há um movimento de câmera que não seja justificado pela concepção geral da linguagem cinematográfica. Ou seja, não dão passos em falso.

Trabalham muitas vezes com material literário e procuram levar à tela o próprio corpo dessa linguagem da literatura. Como? Fazendo os atores (muitas vezes não profissionais) escandir as palavras, como se estivessem medindo as sílabas num poema. É assim, por exemplo, em Gente da Sicília, de Vitorini, mas também nas sucessivas visitas que fizeram aos Diálogos com Leucó, de Cesare Pavese. Em Da Nuvem à Resistência (1980) a Esses Encontros com Eles (2006), Straub e Huillet foram estabelecendo uma relação entre o cinema e esses misteriosos relatos propostos por Pavese em 1947.

Numa época em que o discurso neorrealista, de forte cunho social, se impunha na Itália do após-guerra, Pavese fazia sua releitura da mitologia, com personagens como Édipo e Tirésias, que refletem sobre a sexualidade, a vida e a morte. Há uma excelente edição dos Diálogos com Leucó, em português, editado pela CosacNaify, com tradução de Maurício Santana Dias.

Straub e Huillet dialogaram com escritores como Elio Vitorini, Heinrich Boll, Corneille, Brecht , Pavese e Kafka, músicos como Bach e Arnold Schönberg. O que fazem com essas obras é menos uma adaptação e mais um diálogo entre elas e o cinema. Vale a pena conhecer esses filmes que resistem a qualquer classificação.

(A Mostra acontece no CCBB-SP, de hoje a domingo. www.bb.com.br/cultura)

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