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A intuição do crítico

Luiz Zanin Oricchio

19 de março de 2009 | 14h14

Minha amiga Ivonete Pinto, crítica atuante no Rio Grande do Sul e editora da revista Teorema, me enviou e-mail dizendo que vai fazer uma comunicação em simpósio sobre “a intuição do crítico”, segundo ela inspirada numa observação minha a respeito de Antonio Moniz Vianna. Ela me perguntou se eu havia me referido a algum texto em especial para defender essa ideia e eu não soube dizer de imediato. Depois me lembrei de haver escrito alguma coisa sobre o crítico literário Wilson Martins, no qual falo da tal “intuição”, meio en passant. Procurei esse artiguinho nos arquivos aqui do jornal e o encontrei. Se quiserem, deem uma lida. Acho que ainda vale por algumas ideias que contém. Referem-se à crítica literária, mas são observações que entendo possam ser generalizadas para a crítica de arte em geral, incluindo a cinematográfica. Abaixo, o artigo, publicado no Cultura em dezembro de 2001:

Mestre da Crítica é o volume lançado pela Top Books em homenagem aos 80 anos de Wilson Martins. A edição traz ensaios de Affonso Romano de Sant’Anna, Moacyr Scliar, Edson Nery da Fonseca, Antonio Candido e outros, tendo por tema a carreira do crítico Wilson Martins, ou assuntos literários em geral.

Por maior que seja a importância desses estudos, e por mais ilustres que
sejam os nomes que os assinam, nenhum deles ultrapassa em interesse aquele que abre o livro, O Crítico por Ele Mesmo, do punho do próprio homenageado. É uma espécie de suma de uma vida profissional, escrita com despojamento, clareza e elegância. Alguns dos seus trechos deveriam servir para meditação dos críticos militantes no País. E não apenas dos críticos literários, mas de qualquer modalidade artística.

Formação: Martins se diz educado pelo “sistema antigo, de rigor, disciplina e obediência, sem excessos de complacência”. Essa base cultural, hoje negligenciada, prepara o caminho do crítico. Mas sua formação específica se dá por autoditatismo. Martins era viciado em leitura e comentar os livros alheios pareceu-lhe natural como andar e respirar. Seu primeiro emprego como crítico literário foi no Estado, onde sucedeu a ninguém menos que Sérgio Milliet.

Cânone: ninguém decreta quais são as obras canônicas de uma literatura. Os textos fundamentais ganham lugar no cânone por um longo processo de consenso. Ou seja, foi preciso recuo histórico para que hoje ninguém perdesse tempo discutindo se Shakespeare ou Proust são ou não autores importantes. Basta lembrar que André Gide, que era leitor profissional da Gallimmard, recusou o primeiro volume de Em Busca do Tempo Perdido. A onda do politicamente correto e do multiculturalismo procura colocar o cânone em xeque. Termina por excluir autores importantes e coloca outros em seu lugar. Cria um cânone paralelo.

Qualidade literária: é o que deve guiar a crítica, o seu critério mais
importante. Mas o que é a qualidade? Ninguém consegue definir. Santo
Agostinho dizia isso do tempo. Todo mundo sabe o que é. Quando se procura defini-lo, ninguém sabe mais. Única solução: o consenso, mais uma vez. Para esperar que o consenso se estabeleça, é preciso dar tempo ao tempo. E a qualidade do crítico? Sujeita-se à mesma condição. Há críticos que pareceram brilhantes em sua época e depois são esquecidos. Outros ficam.

História da Inteligência: é a obra mais famosa de Martins e parte, segundo ele mesmo, de uma idéia “um tanto infantil”. Se um país tem um bom dentista, deve ter também um bom romancista. Bem, essa idéia tanto infantil quanto óbvia parte do pressuposto de que a literatura é apenas um aspecto da vida inteligente de um país. No fundo, tudo deve estar interligado na vida intelectual. Essa observação é de grande interesse para o Brasil, país onde cada qual se julga cercado de incompetentes, com a honrosa exceção dele mesmo ou da corporação a que pertence.

Polêmica: segundo Martins, a crítica não deve se render à polêmica, embora tenha sempre um fundo polêmico. Ou seja, é bobagem bancar o bufão da imprensa, assumindo o papel de polemista profissional e discutindo o sexo dos anjos. Mas também não se pode fugir da briga, quando a ocasião exige. A polêmica deve se restringir às idéias, e não envolver pessoas. Ser polêmico, ou potencialmente polêmico, faz parte do métier, porque o crítico não se coloca passivamente diante de uma obra. Faz dela uma leitura ativa e avalia até que ponto ela chega a realizar aquilo a que se propõe.

Crítica jornalística: muitas vezes esnobada pela crítica universitária. Sem motivo, diz Martins. Na universidade não se faz crítica, faz-se ensaio. Você não pode escrever uma crítica sobre Machado de Assis; pode escrever um ensaio sobre ele. O ensaísta só vem depois do crítico e trabalha justamente sobre o longo assentimento forjado por gerações de críticos, que tiveram o topete de dar sua opinião sobre as obras no momento em que elas estavam saindo do forno. “Ele (o ensaísta) só escreve um longo ensaio sobre José de Alencar depois que a crítica disse que José de Alencar é um autor que merece um longo ensaio.” O ensaísmo aparece depois que a crítica já disse o que tinha a dizer. A crítica é trabalho de desbravadores e se faz no calor da hora.

O leitor: quem lê a crítica no jornal? Certamente o leitor instruído, “aquele que tem tanto interesse na literatura quanto na construção intelectual tal como o próprio crítico”. Esse destinatário da crítica é alguém que gosta realmente de ler, sem o que não existe propriamente vida intelectual. Ninguém pensa abstratamente se essa atividade não lhe dá prazer. Por isso, a boa qualidade da crítica depende (também) da boa qualidade do leitor que se tem. E que, por ser inteligente, nem por isso precisa concordar com aquilo que lê. Uma crítica não é feita para gerar assentimentos, mas para estimular o desenvolvimento de idéias. “Mesmo o crítico com quem não se concorda é um crítico útil, ele justamente obriga o leitor a pensar sozinho”, diz.

Crítica “científica”: o crítico é importante para estimular esse debate de idéias. Esse debate continua porque não existe uma crítica “científica”, exata, dogmática, que diga a última palavra sobre determinada obra. A atividade crítica como ciência exata é, segundo Martins, uma indestrutível quimera do pensamento literário. Refere-se à utopia da opinião que não pode ser contraditada por outra opinião. O que não implica no extremo oposto, o relativismo selvagem, o vale-tudo opinativo. A crítica é o desenvolvimento de uma opinião, assinada por alguém que realmente conheça o assunto e tenha a embasá-lo uma cultura geral tão vasta quanto possível. Isso implica, também, a recusa da especialização – “quem sabe só literatura não sabe nem literatura”, diz. Mas a erudição de nada vale sem a intuição, e vice-versa.

Enfim, num momento em que a atividade crítica parece tão em baixa, faz muito bem ler o sereno relato de uma vida dedicada a esse ofício.

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