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A incrível história da câmera comunista

Luiz Zanin Oricchio

08 de junho de 2009 | 19h57

Dizem que durante a ditadura uma pessoa foi presa porque tinha em sua casa um livro chamado O Vermelho e o Negro. Lógico. Devia ser obra de algum perigoso subversivo oculto sob o codinome de Stendhal. Coisa parecida aconteceu naquele tempo na Universidade Federal da Paraíba. Logo que houve o golpe de 1964, o cineasta Linduarte Noronha, na época professor da instituição, foi colocado sob suspeita de ser um agente vermelho. A acusação era séria: pouco antes ele havia trazido do Rio de Janeiro uma câmera 35 mm de fabricação soviética. A história, que não é surreal mas bem verdadeira, ilustra o Brasil daquela época, e é tema do filme Kohbac – A Maldição da Câmera Vermelha, de Lúcio Vilar.

Para situar: Linduarte Noronha é autor do documentário Aruanda, de 1959, um dos filmes mais influentes do cinema brasileiro recente e tido como referência para o Cinema Novo. Junto com outro curta, Arraial do Cabo, de Paulo César Saraceni e Mário Carneiro, Aruanda abriu caminho para uma estética “pauvre”, que depois seria teorizada por Glauber Rocha e batizada de Estética da Fome.

Em 1963, Linduarte era professor da Universidade e esta precisava de uma câmera. Ele foi ao Rio e fez uma verdadeira peregrinação por lojas e magazines até encontrar um aparelho que satisfizesse as necessidades da instituição e coubesse no bolso de orçamento curto. Encontrou o que procurava numa feira de artigos soviéticos. Uma bela câmera Kohbac 35 mm, que foi comprada e enviada a João Pessoa. Mas nem chegou a ser usada. No meio tempo entre a compra e a entrega havia acorrido o golpe militar e passou-se a procurar comunistas até embaixo das camas. Quando se soube da sua procedência, a câmera tornou-se suspeita. E seu comprador mais ainda. Linduarte foi enquadrado e a câmera proscrita parou nos porões de um depósito, onde não poderia fazer mal a ninguém.

Vilar, que é também professor da Universidade, ouve o principal envolvido no caso, Linduarte. E, para surpresa do velho professor e cineasta, mostra a ele a câmera maldita, finalmente reencontrada nos porões da Universidade. Tudo faz parte de um caso tragicômico, bem típico daquela época e mentalidade. Ilustra o que Sérgio Porto chamava de “festival da besteira que assola o país”. Febeapá, para os íntimos.

(Caderno 2, 6/6/09)

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