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A Ilha Roubada

Luiz Zanin Oricchio

26 de maio de 2009 | 16h38

Em pouco tempo Yoani Sánchez saltou do anonimato à condição de uma das pessoas mais conhecidas na rede mundial de computadores. Conseguiu esse feito graças à mais democrática das ferramentas da web, um blog pessoal. Mas não pense que Yoani é apenas mais uma celebridade momentânea, ou que conseguiu fama com a prática da auto-exposição. Nada disso. Ela é uma moça casada, mãe de um filho, cubana, e usa seu blog como ferramenta de resistência política. Quem conta essa história é o jornalista Sandro Vaia, ex-diretor de redação do jornal O Estado de S. Paulo, em seu livro A Ilha Roubada – Yoani, a blogueira que abalou Cuba (Editora Barcarolla).

O lançamento será hoje, terça-feira, das 18h30 às 21h30 na Livraria Cultura Loja de Artes, no Conjunto Nacional (Av., Paulista, 2.073, tel. 3170-4033).

A matéria que publiquei no Cultura de domingo foi em “texto corrido”. Acho que vale a pena recuperar as perguntas e respostas da entrevista original com o autor do livro:

A primeira coisa que chama a atenção no seu livro é a força dessa nova tecnologia que é a internet, capaz de furar o cerco mesmo em regimes fechados. Você acha que a existência do blog da Yoani é uma em si força corrosiva do regime da ilha, ou apenas expressão da insatisfação geral dos cubanos? Em que medida o regime pode implodir por suas incoerências internas ou essa “batalha das ideias” pode ajudar a mudar as coisas?

É um pouco difícil medir até que ponto o blog da Yoani é uma força corrosiva do regime,porque o acesso à internet dentro da ilha é muito limitado,e a própria Yoani não consegue ter acesso direto ao seu blog.Ela não faz mediação dos comentários,que são extraordinariamente numerosos, e recebe cópias deles-depois de publicados- através da rede de colaboradores e tradutores voluntários que ela tem espalhados pelo mundo.Acho que o diferencia Yoani dos dissidentes tradicionais do regime cubano é que ela consegue expressar mais do que qualquer outra coisa, uma ‘malaise’,um sentimento geral de mal estar- uma sensação de que as coisas poderiam funcionar melhor se o regime fosse mais tolerante,permitindo que se criassem mais canais de livre expressão,ou se melhorasse de um modo geral a qualidade de vida das pessoas,que é excessivamente precária materialmente.

Nesse sentido, pela tua experiência, Yaoni e o marido fazem parte de uma maioria insatisfeita ou de uma minoria de “resistentes” que desejam mudanças? Pergunto isso porque, nas vezes em que estive Cuba, senti muita vontade de mudanças e desejo de liberdade, mas também receio de perder algumas das conquistas, sobretudo nas áreas de educação e saúde. No entanto, vejo que Reinaldo, marido de Yaoni, e ela própria, são muito críticos mesmo em relação a essas áreas.

Como disse na resposta anterior,Yoani e o marido são oposicionistas meio ‘atípicos’.Yoani não teve formação ideológica,a resistência dela ao regime é dirigida à sua falta de funcionalidade,que se expressa nas carências da vida cotidiana, nas restrições à liberdade de expressão,na prevalência sufocante de um pensamento único.Se você perguntar se ela tem uma idéia clara do que colocar no lugar, eu diria que não.Já o Reinaldo,o marido, teve formação marxista,e articula um discurso mais ideológico.Eles são muito críticos em relação às áreas de educação e saúde, mas não porque sejam contra os sistemas em si. Eles simplesmente dizem que os sistemas não estão funcionando tão bem quanto o governo diz.Pelo contrário: estão funcionando mal.Decaíram, deterioraram,mais por razões práticas do que ideológicas.Reinaldo,por exemplo,que escreve no blog Desde Aqui,acha que um grande passo do regime rumo à normalização, seria a descriminalização da opinião.Se qualquer opinião contrária à do regime deixasse de ser tratada como delito, seria um grande avanço.

Uma coisa que achei surpreendente no relato do livro foi o fato de Yoani ter saído de Cuba para a Suíça e depois voltado. Você tem alguma explicação para essa atitude?

Eu também achei surpreendente.Parece que ela foi levada a sair mais por um surto de insatisfação existencial,mas deixou a família para trás (inclusive o filho,que depois se juntou a ela),e isso a fez mudar de idéia, segundo ela,e a empreender o caminho de volta.Disse que não queria ser uma exilada,que o pai e a mãe precisavam dela, e que, fosse como fosse, Cuba era sua terra e faria o que fosse possível para melhorá-la de dentro, e não à distância.

Nos anos 80, Fernando Morais escreveu A Ilha, que foi um best-seller, e trazia uma visão bastante positiva de Cuba. O seu livro pode ser visto como uma espécie de anti-A Ilha, no sentido em que revela um sonho que acabou em pesadelo?

Conheço o livro,como conheço o Fernando Morais, e jamais me passou pela cabeça escrever um anti-A Ilha.Essa nunca foi a pretensão do livro.Minha intenção,desde o começo, era focar na aventura individual de uma moça cuja originalidade de pensamento e expressão foi reconhecida no mundo inteiro.A intenção do livro era retratar Yoani e sua relação com o país em que nasceu e em que vive.E como o uso de um novo meio,como a internet, pode ter o extraordinário poder de multiplicar uma voz dissonante.Você vê que a situação do país e do regime são apenas pano-de-fundo do livro.Não é uma reportagem sobre Cuba ou um balanço do regime 50 anos depois da revolução.É uma reportagem sobre Yoani e sua relação com Cuba.O livro não tem intenção de concluir se um sonho acabou em pesadelo ou não,mas ele é capaz de mostrar,através do testemunho de Yoani, que em 50 anos,uma utopia de engenharia social não foi capaz de produzir a felicidade compulsória.

Para finalizar, me diga como foi sua coleta de material para o livro. Você disse que tem 20 horas de depoimentos do casal. Esteve quanto tempo em Havana? Conheceu outras cidades da ilha? Falou com muitas outras pessoas? Me dê uma impressão geral desse seu contato com o povo cubano.

Eu fiquei quase um mês só em Havana e falei com muitas pessoas comuns, do povo, convivi com várias delas, visitei casas de famílias, falei com o embaixador do Brasil, Bernardo Pericás,falei com empregados na área de serviços, funcionários do comércio,com vendedores clandestinos de charutos,com pintores e músicos de rua, com donos de paladares,os restaurantes privados,mas não usei nenhum testemunho ou depoimento.Usei esse dia-a-dia como background,mas como disse não queria fazer um livro geral sobre Cuba,mas sobre a Cuba de Yoani.Evitei falar com membros de entidades oposicionistas organizadas.A impressão geral do contato com o povo cubano, que tem um espírito alegre e tolerante,é que ele está esperando que de repente alguma coisa boa vai acontecer e que a a vida deles vai melhorar.Eles têm um pensamento entre cético e mágico e são capazes de achar que o milagre pode vir até mesmo de Raúl Castro.Um motorista de táxi-sempre eles- me disse uma coisa que outras pessoas comuns me deram a entender com outras palavras: o regime está ‘anquilosado’ e precisa de uma boa dose de ar fresco.

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