A humanidade possível em ‘Os Amigos’
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A humanidade possível em ‘Os Amigos’

Luiz Zanin Oricchio

28 de novembro de 2014 | 20h37

Marco Ricca e Dira Paes. Amizade como fundamento do amor

Marco Ricca e Dira Paes. Amizade como fundamento do amor

Neste momento em que São Paulo vive um clima de exasperação bastante patológico, nada mais oportuno que um filme celebrando o valor positivo do afeto. Os Amigos, de Lina Chamie, é esse cântico terno, amoroso, feito de bons sentimentos, mas que não ignora as brutalidades e nem as asperezas. Coloca tudo junto, nesse delicado, complexo, e às vezes contraditório tecido de que é feita a nossa existência.

Nela tudo cabe, como descobre o protagonista Theo (Marco Ricca), arquiteto de profissão e passageiro involuntário de uma trip existencial provocada por uma morte. Ele acaba de perder um amigo de infância, o que o coloca numa espécie de crise memorialista. Está separado e vive só, com a empregada que o trata como uma mãe. Apega-se cada vez mais a uma amiga divorciada, Maju (Dira Paes) e tenta reordenar a existência, o que equivale a buscar novos significados que a justifiquem.

Esse drama de adultos é pontuado o tempo todo por intervenções de crianças. Ora são os filhos de Maju, ora o filho pequeno do amigo morto que entram em cena. E toda a trama é atravessada, melhor dizendo pontuada, por inserções de um grupo de teatro infantil que encena a Odisseia. São elas, as crianças, o fator de renovação de sentimentos envelhecidos. São elas, também, que relembram, de maneira lúdica, o destino trágico do ser, à maneira de um coro grego.

Theo, que apesar do nome nada tem de onipotente, sente-se como um Ulisses contemporâneo, esse ser que busca sua Ítaca em meio ao caos paulistano, enfrentando a morte, a violência, a indiferença, a desidratação dos afetos. Se haverá uma Penélope à sua espera, é matéria que podemos deixar em aberto.

Basta dizer que Os Amigos celebra uma vitória do afeto sobre tudo que pesa negativamente nos ombros do homem contemporâneo. Em meio a tanta negatividade imposta, há que se buscar um espaço de luz, de ternura, de repouso. É nessa direção que um filme construído sobre reflexões sombrias, monta-se sobre uma fotografia luminosa (de Jacob Solitrenik), um toque de humor preciso, a presença marcante da música (em especial O Carnaval dos Animais, de Saint-Saenz), um estilo de construção cinematográfica que privilegia o espaço aberto em oposição à claustrofobia metropolitana.

Não por acaso, em uma das cenas o arquiteto Theo discute com um engenheiro estrategicamente chamado de Dunga (esclareça-se: Lina é pessoa ligada ao futebol e, como torcedora do Santos, admiradora do futebol-arte. O nome Dunga tem aqui uma ressonância simbólica referente ao pragmatismo no futebol).

Theo deseja um vão livre na escola, pois é o respiro, a possibilidade de convivência social entre as crianças, de integração entre o recreio e a biblioteca, entre o lazer a cultura. O novo sai do vazio, parece dizer. Dunga, pelo contrário, é pelo aproveitamento máximo do espaço. O espaço só tem valor quando possibilita mais construções, de muros, de aposentos, de paredes. O espaço vale quando ocupado, ou seja, quando negado. As pessoas que se adaptem às frestas. Essa visão utilitarista é o próprio espírito da metrópole.

Com tudo isso no backstage, Lina Chamie poderia ter feito um filme distópico, soturno e pessimista – e não haveria nenhum mal se o fizesse, já que esse descaminho social deve mesmo ser denunciado e exposto ao espectador.

Mas preferiu um caminho que, se não é oposto, é diferente. Nesse jogo indefinido entre luz e trevas, optou pelo caminho da claridade. Entrega ao espectador um filme que não edulcora a realidade, porque isso não é possível, porém não se entrega a ela, de maneira passiva. Preserva espaços, abre clareiras. Dá vez aos sonhos, à música, à poesia, ao encontro – àquilo que nos preserva como humanos, apesar de tudo.

 

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