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A hora do Leão

Luiz Zanin Oricchio

06 Março 2007 | 19h53

Nós vivemos a época das opiniões definitivas. O que não deixa de ser curioso, porque também é a época do relativismo e, desse modo, até como reação, as pessoas opinam rapidamente, entrincheiram-se em suas “verdades pessoais” e fecham a cabeça para tudo o que possa contrariar sua pequena verdade. No mundinho do futebol não é diferente.

Por exemplo, já se formou o consenso de que o Leão é um técnico superado. É a caça a ser abatida. E não faltam motivos para isso. Primeiro, o rendimento do time do Corinthians, muito abaixo do que se esperava. Verdade que, visto de perto, o Timão tem um elenco sofrível, mas será tão destoante da medíocre média nacional? Tenho minhas dúvidas. Em todo caso, não era para o Corinthians estar fazendo essa campanha péssima no Paulistão. A tendência, então, é responsabilizar o técnico, como se a bagunça administrativa do clube nada tivesse a ver com o que se passa dentro de campo.

Segundo, Leão tem se incompatibilizado com árbitros e se queixado sistematicamente de que seu time é prejudicado. Verdade. Mas, devemos refletir sobre esse ponto. Quem aí não está de acordo sobre a terrível fragilidade da arbitragem brasileira? Acontece que futebol é esporte de macho e, então, queixar-se, mesmo que de maneira justa, pode parecer fraqueza, desculpa esfarrapada, coisa de gente ranheta e mesquinha.

Por último, e isto é fatal, Leão se indispôs com a imprensa, chegando ao absurdo de cometer uma indelicadeza machista com uma repórter. Bem, no tempo da comunicação de massa, brigar sistematicamente com quem produz o noticiário não pode ser considerada a política mais inteligente para um homem público.

Com tudo isso, Leão construiu para si a imagem de uma figura rígida e antiquada. Sua reação depois do clássico com o Palmeiras só veio consolidá-la. Se desta vez não criticou a arbitragem (e como poderia, depois do baile que levou?), não perdeu a viagem e voltou a sua artilharia para um adversário – Valdivia. Sim, o meia chileno que atormentou a defesa corintiana com seus dribles, foi alvo de crítica velada de Leão, porque seus dribles poderiam ser interpretados como menosprezo ao adversário. Pode? No país do futebol criticar alguém por mostrar habilidade?

Tudo isso leva a crer que Leão seja um caso perdido, não é? Porém (e sempre há um porém, como dizia o grande Plínio Marcos) por que não podemos ter a humanidade de pensar no Leão de poucos anos atrás? Refiro-me ao Leão que treinou o Santos de 2002 e revelou ao País os talentos de Elano, Alex, Renato, e da dupla Diego e Robinho. No contato com esses garotos criativos e irreverentes, Leão rejuvenesceu, abriu-se, mostrou senso de humor antes insuspeitado. Para acompanhar os jovens, tornou-se ele mesmo jovem. Recebi um e-mail outro dia, dizendo assim: “Também, com esses jogadores, até eu…” Certo, mas o chefe que deixa aparecer o talento é talentoso ele próprio. Chefes medíocres costumam reprimir tudo que seja diferente do usual. Leão teve a coragem de abrir-se ao novo e esse mérito ninguém lhe tira.

Eu fico pensando se, nesse momento de solidão, convivendo entre Dualibs e Duprats, não seria legal para o Leão relembrar essa primavera santista. Não com saudosismo, porque a nostalgia não leva a nada e nem as situações se repetem, mas como fonte de inspiração. Bom humor, criatividade, alegria podem não resolver tudo, mas tornam a vida melhor e mais digna de ser vivida. Além disso, a alma leve é mais lúcida e pensa melhor. Leão e o Corinthians precisam dessa leveza mais do que tudo.