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A Guerra Está Declarada

Luiz Zanin Oricchio

13 de janeiro de 2012 | 09h51

O que é a doença de um filho? Uma guerra, na qual se combate para matar ou morrer. Na qual tudo vale, da força à astúcia, dos melhores sentimentos aos mais baixos. Interessa viver. E vencer. É do que trata A Guerra Está Declarada, de Valérie Donzelli, com roteiro de Jérémie Elkaïm. O dado é extracinematográfico mas, no caso,parece importante: Valérie e Jérémie foram casados e o caso real aconteceu com eles. O filho adoeceu e tiveram de cuidar dele. Valérie e Jérémie são também os intérpretes do filme.

Eles vivem Romeo e Juliette, jovens que se conhecem numa balada e começam um amor fulminante. Logo se casam e têm um filho, Adam que, ainda bebê começa a apresentar sintomas inquietantes. E é isso. Em seguida, vem o diagnóstico e o calvário por médicos, hospitais, cirurgias, ressonâncias magnéticas, quimioterapias, a parafernália toda. Uma luta. Uma batalha. A guerra que, como todas, produz suas vítimas, mutilados e traumatizados.

Nada mais previsível do que uma dessas famosas batalhas contra o câncer? Nada disso. Pode-se gostar ou não de A Guerra Está Declarada. Mas não se pode dizer que cai na mesmice. Afinal, que outro filme teria uma pegada pop, rock’n’roll, para tratar um tema desses? Pois é o que acontece. Como diretora, Valérie Donzelli se nega a trabalhar com apenas um registro. Assim, o filme mescla cenas realistas com outras delirantes e até operísticas. É assim, por exemplo, quando a mãe recebe em Marselha o diagnóstico da doença do filho e tem de transmiti-la ao marido, que está em Paris e este precisa avisar a família toda do que está acontecendo. Sentimo-nos, nessa sequência, como se assistíssimos a uma ópera encenada em um grande teatro de palco italiano. Valérie não tem medo de exagerar.

Nem tem medo de brincar com aquilo que seria o tema-tabu, a saúde do filho. Há um diálogo entre ela e o marido, na cama, na véspera da cirurgia, em que ficam imaginando as possíveis seqüelas da criança, até levá-las ao paroxismo: pode ficar cego, surdo, mudo, politicamente de direita, etc. Quem tem medo do humor? Não Valérie ou Jérémie que, com autoridade viveram na própria pele o problema e sabem que um pouco de alegria, e mesmo de humor negro, pode desanuviar tensões, beneficiar a energia do organismo e, dessa forma, preparar melhor as pessoas para enfrentar…a guerra.

No enfrentamento com o corpo médico durante uma doença grave, às vezes temos a experiência direta do universo kafkiano. Há muito disso no filme. Ao mesmo tempo, uma profunda gratidão pela maneira como foram atendidos pelo sistema médico francês. Numa entrevista, Valérie disse que gostaria de lembrar ao espectador que ela vive em um país no qual os procedimentos médicos, por sofisticados e caros que sejam, estão ao dispor de toda a população – e de forma gratuita. “Se fizerem um remake do filme nos Estados Unidos, será a história de um casal que passa o tempo todo tentando reunir dinheiro para tratar do filho”, diz ela, brincando mas também falando muito a sério.

A Guerra Está Declarada é aquele tipo de filme que nos espanta enquanto o vemos e depois permanece na nossa memória, sem querer sair. É um ótimo sinal.

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