A guerra e as formas de enxergá-la
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A guerra e as formas de enxergá-la

Luiz Zanin Oricchio

15 Fevereiro 2010 | 13h23

avatar

Muito já se falou e escreveu sobre Avatar e Guerra ao Terror, os principais candidatos ao Oscar, com nove indicações cada um. O que menos se disse é que esses filmes põem sobre a mesa concepções diferentes acerca do envolvimento norte-americano em guerras com outros países. Esse, talvez, seja o maior interesse de compará-los.

Avatar, de James Cameron, às vezes acusado de ingênuo, parece, pelo contrário, um raro filme de inspiração popular a tratar a guerra com franqueza. Basta deixar de lado seus penduricalhos populistas e piegas, típicos de um blockbuster, e ater-se, em termos gerais, àquela que seria sua linha ideológica básica. Pela história, Pandora será invadida por terráqueos porque dispõe de um metal valioso como fonte de energia, sendo que os recursos da Terra já estão esgotados. Muitos criticaram a visão idílica de Pandora, com os habitantes vivendo em harmonia com a natureza, uma versão contemporânea do bon sauvage de Rousseau. É verdade. Mas o ponto fundamental não é esse e sim a ocupação militar por motivos econômicos. Parafraseando Clausewitz, a guerra seria a continuação da economia por outros meios. Trocando o metal fictício (unobtanium) por petróleo e Pandora por Oriente Médio, somam-se dois mais dois e chega-se ao Iraque. Embora seja uma licença poética, pois o Iraque real em nada se assemelha a um paraíso perdido. Ainda assim, os invasores representam uma união entre interesses de Estado e das corporações, incluindo o complexo industrial-militar. E, nesse ponto, o filme é claro. Didático, como tem sido também acusado.

Outro aspecto interessante é que o líder da resistência será um dos supostos invasores, o paraplégico Jake Sully (Sam Worthington), que se transforma num Na”ve para espionar essa espécie humanoide que habita Pandora. Quer dizer, inicialmente um “infiltrado”, ele se torna um agente duplo e, por fim, passa para o outro lado. Artes do coração, pois se apaixona por uma Na”ve. Mas, enfim, tirando a fantasia, há em Avatar essa leitura, bastante madura e realista de que um país (planeta, no caso) invadido só tem uma forma de defender-se e essa é o enfrentamento militar do invasor. Claro que são colocados alguns atenuantes para que essa justificação ideológica da guerrilha (porque é dela que se trata ao enfrentar o aparato militar invencível dos invasores) se atenue. Um desses amortecedores é a passagem para o outro lado de Sully. Quer dizer, há uma migração de um lado a outro para que o ponto de vista norte-americano não se perca. O filme seria diferente, caso a perspectiva fosse de fato a do invadido.

O outro atenuante é mais importante. No auge da batalha, vê-se que os defensores de Pandora irão perder inevitavelmente… até que os animais e as forças da natureza em geral entram em seu auxílio. Assim, o combate é deslocado para o lado do confronto entre a “civilização” invasora (e predatória) e a natureza que se defende. O que leva o filme para o lado consensual da ecologia, da preservação do meio ambiente e das culturas ameaçadas, a grande causa da modernidade, se é que ela tem uma. Com essas precauções, o filme evita a acusação direta de ser um elogio “vietnamita” à resistência armada e se alinha à advertência preservacionista de que a natureza não se defende; apenas se vinga. Esse é o maior alerta a ser feito num tempo em que o planeta dá claros sinais de fadiga. Mas preservá-lo não é politicamente simples, como se viu há pouco em Copenhague.

Por outro lado, Guerra ao Terror dá a invasão como fato consumado, sem servir-se de qualquer alegoria: em linguagem realista, aqui o Iraque é o Iraque e ponto. Kathryn Bigelow concentra-se no ponto de vista de um batalhão de elite antibomba e nunca abandona esse olhar. Baseado nos relatos do jornalista Mark Boal, do New York Times, o filme ressalta um aspecto psicológico particular, o dos “viciados em perigo”, que, depois de enfrentar a tarefa de alta tensão de desmontar bombas, sentem dificuldades em se readaptar à vida civil. O ponto de vista adotado, aqui, é do recém-chegado a Bagdá William James (Jeremy Renner), um fanático pela adrenalina, corajoso até a temeridade, que enfrenta a sua tarefa como se estivesse participando de um game com os amigos.

Tecnicamente muito bom, o filme se mantém nos limites estritos do realismo – “pois essa era a maneira de passar ao espectador a tensão da guerra”, como disse em entrevista a diretora. Ao mesmo tempo, conserva a perspectiva norte-americana como única durante toda a ação. Os iraquianos são coadjuvantes em seu próprio país. Não há sequer uma tentativa de compreensão do que pensam ou sentem em seu convívio forçado com as forças ocupantes.

Se Avatar tenta, ainda que parcialmente, um vislumbre desse ponto de vista duplo, Guerra ao Terror não terá qualquer problema de consciência ao limitar-se a um único ângulo de observação.

O que cria um paradoxo interessante nessas visões contrastantes do intervencionismo: por fantasiosa que seja, a concepção de Avatar sobre a guerra aproxima-se mais da realidade do que Guerra ao Terror com seu realismo unidimensional.

(Caderno Cultura, 14/2/10)