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A Grande Guerra: tema do covarde e do herói

Luiz Zanin Oricchio

01 de julho de 2011 | 11h54

Com A Grande Guerra, Mario Monicelli (1915-2010) atinge um dos pontos máximos de um cinema que tem na mistura de humor e drama seu segredo maior. Fazendo rir e chorar e, por fim, induzindo o público ao pensamento crítico, o filme, vencedor do Leão de Ouro em Veneza em 1959, se constrói com uma fluência que traz o espectador preso não apenas à sua trama principal, mas às subtramas que se vão abrindo ao longo do caminho. A arte da digressão tampouco era estranha ao talento de Monicelli.

A primeira sequência já apresenta os dois personagens principais, o romano Oreste (Alberto Sordi) e o milanês Giovanni (Vittorio Gassman) expondo suas características. A Itália está convocando seus soldados para a carnificina na 1ª Guerra Mundial e Giovanni, como bom malandro, tenta tirar o corpo fora. Na fila dos convocados, Giovanni julga que Oreste pode ter alguma influência sobre o oficial que está recrutando os jovens e paga por seus bons serviços. É enganado. De engano em engano será feita a trajetória não apenas dos dois, mas de todo o pelotão combatente. A guerra, segundo Monicelli, se constrói através de equívocos.

Sim, porque Oreste e Giovanni, por mais que tentem se livrar do perigo, mais se enredam na guerra e de maneira cada vez mais intrincada e profunda. Fazem lembrar a famosa frase de Trotski: você pode não estar interessado na guerra, mas a guerra está interessada em você. E é querendo evitar o perigo maior que a dupla de malandros terá de se defrontar com o grande desafio de suas vidas. Como se Monicelli dissesse que o heroísmo não se busca; ele é apenas uma possibilidade aberta diante de uma situação terminal. Por outras palavras, ninguém nasce covarde ou herói. Tudo depende das circunstâncias. E, às vezes, a covardia é o primeiro passo para a construção de um herói.

A dramaticidade dos combates (filmados de maneira bastante realista) têm como contraponto os aspectos cômicos, por exemplo, o envolvimento de Giovanni com a prostituta Costantina, vivida por Silvana Mangano. Monicelli integra com engenho e arte os protagonistas e os personagens ditos secundários. Da prostituta ao oficial de sobrenome propício a piadinhas (o tenente Gallina, interpretado por Romolo Valli), todos respiram humanidade, que é o termo maior para Monicelli, um diretor afinal bastante influenciado pelo neorrealismo. Seus personagens, seus heróis mais marcantes, são pessoas do povo, gente que conhece a fraqueza humana e com ela é tolerante porque, no fim, somos todos frágeis e mortais, mesmo quando o dever nos manda ser inflexíveis.

Monicelli nos lembra que os heróis do povo são desconhecidos. No limite, ninguém sabe que são heróis e nem mesmo eles o sabem. Não ganham estátua em praça pública. Os heróis do povo miúdo são anônimos.

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