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A grande família

Luiz Zanin Oricchio

27 Janeiro 2007 | 11h16

Chega às telas o primeiro ‘filme-TV’ do ano, dirigido por Maurício Farias. É a versão cinematográfica de A Grande Família, seriado que, dizem, mantém invejável média de ibope de 40 pontos. Esse é um dado, que aponta para um hipotético caminho seguro na trajetória do filme. Pelo menos em tese. O que se supõe é que o êxito continuado na telinha se repita de alguma forma na telona. Essa suposição se expressa nos números de distribuição: 245 cópias para todo o País, o que, para um produto nacional, é muita coisa.

Bem, estava lá, no Kinoplex do Itaim, todo o elenco global – Nanini, Marieta Severo, Andréa Beltrão, Pedro Cardoso, Guta Stresser, Lúcio Mauro Filho, mais o diretor Maurício Farias. Risos moderados durante e aplausos moderados no fim, nesse tipo de situação que costuma ser consagradora.

Não que o filme não tenha alguns momentos engraçados. Tem, em especial, a meu ver, com Pedro Cardoso, que faz um divertido Agostinho, o genro picareta de Lineu. Agora, o que se tem de cômico é pouco, para a duração do filme. Falta conjunto ao filme, embora não se possa dizer que atores há tanto tempo juntos estejam desentrosados.

O problema talvez esteja numa certa indecisão de projeto. De um lado se tem uma situação singela. Lineu (Nanini) e a mulher, Nenê (Marieta Severo), que vão anualmente ao mesmo baile onde se conheceram 40 anos atrás. Um longo caso de amor, numa família suburbana que não deixa de ter seus problemas, com o genro, o filho, etc. Enfim, não é preciso ficar descrevendo alguma coisa que faz parte do conhecimento geral da nação. Ou pelo menos da grande maioria da nação, que passa a vida sintonizada na Rede Globo.

Só que, a esse humor ingênuo, de origem televisiva, se acrescentou um toque diferencial, e presente no roteiro de Guel Arraes. Este propõe um recurso narrativo engenhoso – o desdobramento da história principal em três possibilidades. Lineu foi ao médico e descobriu uma mancha no pulmão. Faz o exame e não tem coragem de abrir o envelope para ver o resultado. Na primeira alternativa, a história se desenvolve segundo a perspectiva de um Lineu abatido pela possibilidade da morte próxima. Na segunda, o personagem procura aproveitar ao máximo o tempo que julga lhe restar de vida. Na terceira… bem, veja o filme.

Não é novo, nem se exige que seja, esse tipo de recurso aos destinos múltiplos. Os mais cinéfilos certamente se lembram de uma verdadeira obra-prima que chegou por aqui faz alguns anos, Smoking no Smoking, que Alain Resnais adaptou de uma peça do britânico Alan Ayckbourn. Uma personagem sai para o terraço e hesita: deve acender um cigarro e fumar ou não? Conforme essa simples decisão, a história irá tomar duas direções completamente distintas.

Não saberia dizer se Guel Arraes teve esse filme duplo de Resnais como referência erudita (e, portanto, oculta) no momento de escrever sua versão cinematográfica para A Grande Família. O fato é que o humor singelo de um lado e essa estrutura em abismo das possibilidades, abertas a cada decisão, acabam não combinando muito bem. O filme torna-se longo e a cada ritornello a uma situação-chave na vida de Lineu, o espectador se pergunta se aquele será o último volteio ou haverá outros ainda.

É bem essa contradição entre o humor ingênuo e uma estrutura narrativa em aberto que emperra o filme e tira a fluidez da comédia. A idéia seria sofisticar o produto pela forma e preservar a simplicidade no conteúdo. Ficou um pouco esquizofrênico. Mas é possível e até provável que o público nem ligue para isso.