As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

A graça da música

Luiz Zanin Oricchio

24 de setembro de 2007 | 19h38

Me dei de presente dois programas muito felizes neste fim de semana. Primeiro, fui ver Pedrinha de Aruanda, de Andrucha Waddington, cuja estréia eu tinha perdido por estar fora do País. Depois, logo em seguida, assisti à pré-estréia de Piaf – Hino ao Amor, pois foi assim que La Môme foi rebatizada em português, filme que entra em cartaz dia 12 de outubro.

Existe algo de muito especial na maneira simples como Andrucha filma o encontro dos filhos famosos, Caetano e Bethania, com a mãe, dona Canô, em Santo Amaro. O pretexto de Pedrinha de Aruanda é o aniversário de Bethania, mas o que mais me chamou a atenção – e despertou a emoção – foi a seresta de filhos e mãe na varanda da casa de dona Canô.

Há um Brasil aí, antigo e atual, que se constrói em torno da música e da delicadeza. Um Brasil brejeiro, suburbano, que deve continuar existindo por aí, ainda que de maneira rarefeita. Gostei da maneira discreta como Andrucha filma tudo isso, sem tentar sequer inventar um “roteiro” que desse um sentido àquilo tudo. Porque o sentido, sim, já estava dado. E ele renasce em cada um de nós.

Já Piaf é uma cinebiografia de filmagem bastante convencional, mas também muito emocionante. Desconfio que essa emoção venha diretamente do envolvimento da atriz Marion Cotillard na caracterização de Piaf e sua vida tão cheia de transtornos.

O diretor Olivier Dahan ensaia dois momentos de ousadia no filme – e que funcionam muito bem. Um deles, quando Piaf descobre que não é apenas uma cantora, é uma atriz sobre o palco e portanto a expressão facial e gestual é também muito importante. Nessa seqüência há música, mas não é de Piaf cantando. Essa disjunção, apenas acentua a teatralidade da artista, a reforça e põe em evidência. Na outra, quando ela recebe a notícia da morte do amado, o boxeador Marcel Cerdan, anda em desespero pela casa, até que sai diretamente de um cômodo para o palco. Melhor maneira de dizer que a vida trágica se expressa diretamente na voz da artista, impossível.

Vale dizer também que essa teatralidade da interpretação engloba as duas cantoras, Piaf e Bethania. São cantoras do palco, embora suas vozes se sustentem sozinhas. Agora, na voz de Piaf existe toda a dor do mundo.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.