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A generosidade do artista

Luiz Zanin Oricchio

08 Novembro 2006 | 11h49

Para os que leram o post anterior: minha mulher me chama a atenção para uma passagem do ótimo livro Cinema sem Fim – a História da Mostra 30 Anos, de Leon Cakoff (456 págs., Imprensa Oficial), muito esclarecedora sobre o relacionamento entre as músicas latinas e o cinema. Transcrevo o trecho:

“Conversamos (Cakoff e sua mulher Renata) muito com Wong Kar-Wai e nos despedimos presenteando-o com um dos tantos discos de músicos brasileiros levados na bagagem. E lhe demos o CD de Caetano Veloso, Fina Estampa, um dos sucessos daquele tempo.

No dia seguinte, Kar-Wai nos chama no hotel. Diz que está feliz com o disco de presente. E sacramenta: ‘De agora em diante vocês vão ser os meus ‘music advisers’ (consultores musicais).

Essa história tem seu final curioso, nervoso e engraçado um ano depois, no Festival de Cannes, onde veremos o novo filme de Wong Kar-Wai, Happy Together, em competição. O filme começa justo com a canção Cururrucucú Paloma, na voz de Caetano, clássico mexicano de Tomás Méndez, a mesma do disco dado de presente a Wong Kar-Wai. Ato contínuo, Jose Maria Prado, diretor da Cinmemateca de Madri, marido da atriz almodovariana Marisa Paredes, sai correndo da sala para telefonar. Sabemos ao final da sessão o motivo do seu nervosismo. Ele foi telefonar a Almodóvar, em Madri, para dizer-lhe para tirar a música de Caetano Veloso, essa mesma, da trilha de seu novo filme, Carne Trêmula, pois ela estava sendo usada no filme de Hong Kong sem ninguém aparentemente saber de nada. Wong Kar-Wai…havia se apossado da música que lhe caiu de presente nas mãos, sem avisar ninguém. Nem Caetano Veloso, nem a editora, nem a gravadora. ‘Deixe isso para depois’, nos diria. ‘Não deu tempo ainda de correr atrás dos detalhes da produção’.

De volta a São Paulo, telefono para Caetano para contar-lhe detalhes da história e assumi culpa indireta pelo ocorrido. Almodóvar já lhe havia comunicado a decisão de excluir a música de seu novo filme e Caetano já havia lhe explicado que a autorização do uso no filme de Wong Kar-Wai não havia partido dele. Mas Caetano, sossegado como sempre, não estava preocupado com o detalhe da pirataria. Queria saber quem era Wong Kar-Wai, se era um bom cineasta e se havia feito bom uso de sua cantoria. E nos pediu emprestados os vídeos que tínhamos dos seus filmes anteriores. A mesma reação de Wong Kar-Wai em outra versão com Caetano Veloso. O artista mais preocupado com a difusão da sua arte do que outra coisa.

O episódio acabou beneficiando duplamente a Caetano Veloso e o uso dessa canção mexicana. Ao postergar o uso de Cucurrucucú Paloma, Pedro Almodóvar reservou a Caetano uma particiapção especial em seu filme seguinte, Hable com Ella, onde ele canta pessoalmente a mesma canção e para uma pequena platéia E esse filme foi muito mais visto por ter seguido carreira na sua campanha vitoriosa pelo Oscar” (pags. 283-284).