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A galera quer resultado e show

Luiz Zanin Oricchio

21 de novembro de 2007 | 09h28

Não sei vocês, mas eu fico mais interessado em ver como a seleção joga do que no placar da partida. E por quê? Porque não duvido um segundo da classificação para a Copa de 2010. Brasil e Argentina já estão lá. Os outros vão disputar vagas – Uruguai, Paraguai, Colômbia, quem sabe? Mas é óbvio que as duas grandes forças sul-americanas baterão ponto na África do Sul. Mais: chegarão à Copa na condição de favoritas. Até aí é chover no molhado.

O que me deixa intrigado é essa dificuldade que a seleção tem de jogar bem. Afinal, o Brasil tem bons jogadores, alguns ótimos, como a famosa trinca Kaká, Ronaldinho e Robinho. Claro que os laterais deixam a desejar e o centroavante ainda não foi encontrado, a não ser pelo Dunga. Mesmo assim, sem ser genial, o time poderia render muito mais. No entanto, ele não anda em campo. Vem realizando campanha bem discreta nestas Eliminatórias e nem o mais empedernido patrioteiro pode achar que o empate com o Peru foi convincente.

Claro que parte da responsabilidade cabe ao técnico. Afinal, foi perceptível que o Brasil voltou no segundo tempo recuado, para segurar o resultado, o que deve ser orientação (ou desorientação?) do “professor”. Mas não consigo imaginar um time composto por onze robôs, sem iniciativa dentro do gramado. Pois bem, o mal-estar que sinto em relação a esse time pode ser definido por essa expressão – falta de iniciativa.

Olhando a partida desapaixonadamente, deu para ver com clareza a diferença de empenho entre os jogadores peruanos e os brasileiros. Se estes são melhores tecnicamente, os outros pareciam muito mais motivados. Não, não quero defender a tese batida que faz da “raça”, do “empenho”, ou (pior) da “atitude”, ou que outro nome tenha, o fator mais importante para definir um jogo. Agora, que essa, sei lá, vibraçãozinha a mais pode fazer alguma diferença, quanto a isso não tenho a menor dúvida. E não é de hoje que esse estranho fator vem fazendo falta à seleção. Basta lembrar o vexame na Alemanha.

A sensação é que o time não dá liga. Que não chega ao ponto, como uma daquelas maioneses que ficam aguadas ou desandam. Também fica a impressão de que ninguém está muito preocupado com isso. Jogar parece um ato burocrático, pelo menos para alguns jogadores. Outros, como Juan e Kaká, pensam diferente. Kaká está sempre muito sério, determinado como um evangelista. E também inspirado, como se deduz pelo gol que marcou, dando um tapa de três dedos na bola e deixando o goleiro sem ação. O único momento mágico de todo o jogo. Mas e o resto do time? Cadê a iniciativa para abafar o adversário e impor a superioridade, pelo menos teórica? A resposta foi a omissão.

Tenho a impressão de que, no Morumbi, contra o Uruguai,os jogadores deveriam pensar na expectativa de boa parte do público brasileiro. A torcida aceita que seu time de coração jogue mal mas consiga os resultados de que precisa. Um golzinho nos descontos já é motivo para euforia. Com a seleção as exigências são outras. Nela, em tese, estão os melhores, aqueles jogadores que não podemos sustentar em nossos clubes. E como já não temos com a seleção aquele laço de amor atávico, nos interessa tanto o placar como o espetáculo que ela deveria oferecer. Nos comportamos como consumidores exigentes. Pagamos, queremos ver o show. Senão, dá chiadeira. Ou, no caso, vaia

(Coluna Boleiros, 20/11/07)

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