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A força da camisa

Luiz Zanin Oricchio

20 Março 2007 | 19h08

Domingo, no campo do Ituano, havia uma faixa com os dizeres: “Quem mora no interior, torce por time do interior”. No entanto, a torcida do Santos parecia maior do que a do dono da casa. Como estou passando férias no interior do Estado tenho conversado com os moradores. E encontro entre eles torcedores do Corinthians, do São Paulo, do Palmeiras e do Santos. Cabreúva, a cidade mais próxima de onde estou, é reduto corintiano, me garantem. Será verdade? Afinal, estamos próximos de Itu e Jundiaí e, desse modo, seria “normal” que as pessoas torcessem pelo Ituano ou pelo Paulista.

O que deve acontecer, com freqüência, é o “duplo vínculo”que a faixa no campo do Ituano condena. O sujeito torce pelo time da sua cidade e, também, por um dos grandes. Com o time da casa ele pode alimentar seu espírito regional, que faz parte da nossa condição a despeito de todo esse papo furado contemporâneo (somos locais e globais, me parece). Torcendo por um dos grandes, aspira ser campeão, glória que não sonha para o time da sua cidade. Será que é assim mesmo? Não sei.

O que sei é que este Campeonato Paulista estava se encaminhando para um desfecho surpreendente, deixando de fora dois dos postulantes “naturais” ao título, Palmeiras e Corinthians. E já se especulava quais equipes do interior formariam o quarteto das semifinais que indica o campeão, ao lado dos favoritos São Paulo e Santos. Poderia ser o São Caetano, mas também Noroeste, Paulista ou Bragantino, que continuam na briga.

Acontece que, contra as expectativas, Corinthians e Palmeiras ressuscitaram. O Palmeiras já entrou para o G-4. O Corinthians chegou perto da porta com a vitória de domingo sobre o Noroeste. Vai lutar por vaga nesses jogos restantes. Não me surpreenderei se conseguir: a força do Timão não pode ser subestimada.

O jogo de domingo no Pacaembu foi mais uma prova disso. O Corinthians jogou bem? Não. Nem o mais fanático Gavião voaria tão alto. Aliás, o Corinthians não joga bem. Joga feio, com pouca técnica e padrão tático oscilante. E, no entanto, venceu um time muito mais bem montado, como é o caso do Noroeste. Força da camisa? Sem dúvida. E, se conseguir mesmo chegar entre os quatro, quem terá coragem de afirmar que será azarão diante dos hoje muito melhores Santos e São Paulo? Eu não diria, porque entendo que superioridade técnica é apenas um entre outros fatores que ganham jogos, em especial os decisivos.

A mesmíssima coisa pode ser dita do Palmeiras, com uma diferença: vendo o Verdão atuar, nota-se que Caio Jr. já está conseguindo impor um padrão ao time, com Martinez, Valdívia e Edmundo em grande fase. Se conseguir mesmo ficar entre os quatro, quem vai dizer que o Palestra não será um dos fortes candidatos ao título?

O fato é que, na reta final, Palmeiras e Corinthians parecem se agigantar enquanto concorrentes mais bem montados, mas de menos nome, perdem terreno.

Onde os dois grandes buscam o fôlego que já não se esperava deles? Na chamada “força da camisa”, aquele patrimônio imaterial expresso pela torcida fervorosa, títulos acumulados, grandes craques do passado, a tradição, enfim. Por entorpecidos que estejam pelo culto ao deus mercado, os jogadores, alguns pelo menos, acabam sentindo e absorvendo essa força e conseguem dar aquele algo a mais em campo e fazer a diferença.

Quem achar que a camisa não joga, ignora do que é feito o futebol. Mas não convém que cartolas e atletas contem demais com isso, pois camisa também se honra e se alimenta.