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A filosofia que não é digestiva e nem de auto-ajuda

Luiz Zanin Oricchio

03 de dezembro de 2006 | 19h03

Amigos, segue abaixo o texto que escrevi para a seção Revista das Revistas, do Cultura deste domingo. Na mesma edição, queria destacar para vocês o artigo sobre Giangiacomo Feltrinelli, que foi um mix de editor, miliardário e revolucionário. EStá bem interessante. Boa leitura e abraços.

Não deixa de ser curioso o caminho que a filosofia está tomando. Nos anos 1970, ou 1980, era vista, sem meios-termos, como uma disciplina de grande passado na história, inútil no presente e sem qualquer futuro visível. Não por acaso, os cursos se esmeravam em reproduzir uma história da filosofia, falando de obras já feitas, uma espécie de vasto capítulo preliminar à ciência e que, no presente, serviria como mera curiosidade, ou pior, verniz cultural.

Essa visão superficial não iria durar muito tempo, mas nem o mais otimista dos professores daquele tempo poderia pensar que a filosofia, tão depressa, voltaria à cena, e ainda se tornaria moda intelectual para consumo de massa. Por que dourar a pílula? Se é fato que a filosofia voltou à cena contemporânea, não é menos verdade que agora faz as vezes de literatura de auto-ajuda de luxo. Desse modo, ganhou capas de revistas (até no Brasil!), em especial depois que Alain de Bottom descobriu o filão dos autores cult (e não apenas filósofos) que poderiam ser utilizados como conselheiros informais de um cotidiano dos mais angustiantes.

Nesse sentido, a volta por cima da filosofia chegou a parecer uma vitória de Pirro. Ei-la de novo presente na vida das pessoas, mas sob forma diluída, facilitário e consolo rápido para os aflitos do espírito.

A reação a isso é talvez o sentido mais profundo dessa bela edição da revista Le Magazine Littéraire, que tem por dossiê “les nouveaux enjeux de la philosophie”. Para falar desses novos desafios, a revista consultou 30 pensadores franceses contemporâneos. E descobriu que, entre esses pensadores profissionais, as antigas questões da filosofia conviviam com as novas, impostas pelo tempo. Assim, eles continuam a refletir sobre os universais, a debater as interrogações metafísicas, o problema da democracia, do laço social e do sentido. E mostram como essas velhas interrogações permitem iluminar as novas questões propostas pelo mundo contemporâneo. Conclusão da revista: a filosofia (pelo menos a francesa) está “na jogada” e enfrenta o desafio de pensar o mundo atual, com toda a sua imensa série de problemas proposta pelo frenesi informativo, o tribalismo que convive com a globalização econômica, a perda das referências fundadas em um universo mais estável, etc.

A revista se pergunta: extintas as gerações de Sartre, Foucault, Derrida, Deleuze, o que teria restado? Simplesmente, um segundo time de pensadores prêt-à-porter, como Bernard-Henri Lévy, Alain Finkielkraut e Gilles Lipovetsky, para citar os mais presentes na mídia. Esse deslocamento representa a passagem da profundidade para a superficialidade e também, de modo geral, da esquerda para a direita no espectro político. Essa filosofia mais palatável para a época do pensamento único só poderia sobreviver mesmo como auto-ajuda. François Cusset, no artigo que abre o dossiê, lembra que Lévy se preocupa mais em ser um best seller do que em aprimorar suas ferramentas teóricas; Finkielkraut dá declarações à imprensa israelense que, por comparação, fariam dos neoconservadores de Washington perigosos esquerdistas. E Lipovetsky é um teórico que mobiliza seu conhecimento para fazer a apologia da moda e justificar o luxo num mundo de desigualdades.

Ao mesmo tempo, Cusset encontra pensadores densos, como Jacques Rancière, Alain Badiou, Bruno Latour e Étienne Balibar, menos empenhados em atrair os holofotes sobre si que em desenvolver o pensamento filosófico e aplicá-lo às questões vitais do nosso tempo. Um exemplo citado é o de Jean-Claude Milner, ocupado com a lingüística e a questão do sentido num mundo que às vezes parece desprovido dele. Milner estuda Chomsky e o relê à luz da teoria lacaniana. Desse cruzamento de idéias, tira uma das grandes teorias lingüísticas contemporâneas. Outro exemplo: Bernard Stiegler, cuja grande obra, em seis volumes, se ocupa em dissecar a “miséria simbólica” (sic) que marca o reino das indústrias culturais capitalistas. É alguém que leva em conta o aparato tecnológico, seus desdobramentos e efeitos sobre a subjetividade.

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