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A Filha de Ninguém

Luiz Zanin Oricchio

14 de dezembro de 2013 | 01h39

Há uma pequena cena no início de A Filha de Ninguém que diz muita coisa sobre o projeto do filme e do seu diretor, Hong Sang-Soo. Uma estrangeira pede informação a uma mocinha em Seul. Logo a reconhecemos: é a cantora e atriz Jane Birkin. As duas conversam um pouco. Birkin elogia o inglês da garota e esta se declara sua fã e também fã de sua filha, ou seja, da atriz francesa Charlotte Gainsbourg.

Fica estabelecida, a partir desse prólogo, a afinidade entre Sang-Soo e o cinema europeu, francês mais especificamente. Mesmo porque, seu filme anterior se chamava A Visitante Francesa e tinha no elenco ninguém menos que Isabelle Huppert. Essa aproximação permite à revista Cahiers du Cinéma chamar Sang-Soo de “o mais rohmeriano dos diretores orientais”. Sem dúvida, essa alusão a Éric Rohmer (1920-2010), um dos pilares da nouvelle vague, se justifica. Como Rohmer, Sang-Soo (que já ganhou matéria de capa nos Cahiers) é um cineasta do diálogo, do cotidiano, do mistério das relações amorosas que tentam, em vão, se exprimir através de palavras.

Com a protagonista Haewon (Jeong Eun-Chae) dá-se um desses casos de vidas complicadas desde a juventude. Numa tocante cena logo no início do filme, vamos vê-la se despedindo da mãe, que vai tentar refazer a vida no Canadá. Ou seja, no outro lado do mundo. É um diálogo aparentemente banal, desses que visam a ocupar o tempo e não deixar que o silêncio incomode (poucas coisas se toleram menos no mundo contemporâneo do que o silêncio). Mas, nas entrelinhas, percebemos muita coisa do relacionamento entre as duas.

Há também o complicado affair entre Haewon e seu professor de cinema, um tipo difícil, casado porém temeroso de se separar da esposa. Pelo que ouvimos do que falam na intimidade já houve idas e vindas, rupturas e reconciliações. O jovem professor é interpretado por Lee Seon-Gyoon, ator-fetiche de Sang-Soo. Ele tem uma voz estranha, mesmo seu jeito de andar é irregular, da mesma forma que a maneira como se relaciona com os outros. Bebe, tropeça, parece sempre a ponto de cair. É um “gauche” na vida, como dizia o poeta Carlos Drummond de Andrade. Quando está triste, coloca um trecho de música – da 7.ª Sinfonia de Beethoven – tocada num gravador antiquado. Ao lado de Haewon, ele parece uma figura um tanto patética, pois a moça é uma beldade, graciosa na roupa que usa durante toda a história, um mantô marrom.

Nota-se nela algo de ocidentalizado. Numa reunião de bar, com todo mundo já um tanto alto, é chamada de “mestiça” quando se ausenta para ir ao banheiro. Um evidente comentário discriminatório, como se dissessem que ela não é totalmente “nossa”, alguém não de todo confiável, pois tem o sangue misturado e portanto é preciso abrir os olhos.

Já chamaram Sang-Soo de proustiano e não resta dúvida de que sua matéria-prima seja a memória. A memória não como recordação do real, mas matéria já transfigurada pelo próprio ato de evocar o passado que não volta. A lindíssima Haewon tem todo o frescor da juventude, mas não está no mundo em estado puro – ela é, já, perseguida por sua memória do passado. No fundo, A Filha de Ninguém é um filme muito belo, e muito triste também.

 

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