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A ficção que nasceu de uma crônica de jornal

Luiz Zanin Oricchio

03 de julho de 2008 | 18h33

Entrevista com Guilherme de Almeida Prado, que fala de Onde Andará Dulce Veiga?, o seu quinto longa-metragem

Onde Andará Dulce Veiga?, quem diria, nasceu de uma crônica de jornal, aliás do Caderno 2, escrita por Caio Fernando Abreu em 1987. Intitulada então de Onde Andará Lyris Castellani?, o texto deu origem a um roteiro de cinema, a um romance e, por fim, ao longa-metragem que agora está em cartaz, dirigido pelo amigo de Caio, Guilherme de Almeida Prado. Onde Andará Dulce Veiga? é o quinto longa de Guilherme, cineasta que tem em A Dama do Cine Shangai seu maior sucesso. A seguir, trechos da entrevista de Guilherme ao Estado.

Gostaria que você relembrasse um pouco dessa origem do filme, com início na crônica.

Acho que foi muito enriquecedor porque acabou incorporando toda uma vivência de amizade entre o Caio e eu. Conhecia o Caio, mas não era amigo dele quando li a crônica Onde Andará Lyris Castellani? no Estadão. Já admirava o universo literário do Caio, mas era apenas conhecido e não amigo do Caio. O roteiro nasceu da crônica e da própria experiência do Caio como jornalista. O roteiro não agradou à Embrafilme na época. O Caio escreveu o livro pensando em ajudar a alavancar o projeto, mas veio o Collor e o projeto foi para a gaveta. Saiu graças ao laboratório do Sundance, que me ajudou a dar roupa nova e atual para o filme.

Em termos da sua filmografia, como você coloca o Dulce Veiga? Como um filme mais simples, mais linear que os anteriores, em especial A Hora Mágica? Lembro que você disse que seus filmes eram mais bem apreciados quando revistos.

Acho Dulce Veiga muito mais popular que A Hora Mágica. É meu filme mais parecido estruturalmente com Flor do Desejo, mas agora pude realizar melhor o que tinha apenas esboçado antes. Dezenas de pessoas já assistiram a Dulce Veiga duas vezes e algumas três e vieram me dizer que tinham gostado mais da segunda do que da primeira e mais ainda da terceira. Isso me deixa muito feliz. Acho que faz parte do meu estilo de contar estórias. Faço filmes que possam ser vistos mais de uma vez. Acho até que eles precisam ser vistos mais de uma vez para serem totalmente compreendidos e apreciados. Se for escolher uma lista dos meus filmes prediletos, de muitos deles não gostei à primeira vista. Foi o caso de Cidadão Kane, que numa primeira leitura achei confuso e sem emoção. Na segunda vez comecei a achar que havia alguma coisa interessante. Já o assisti mais de 30 vezes e sempre encontro algo novo e surpreendente.

Uma vez você disse que a sua obra é como meditação sobre os limites entre realidade e ficção.

Acho que o tênue limite entre a realidade e a imaginação é a tela onde pinto todos os meus filmes. A realidade está nos olhos do observador. Por isso desconfio tanto dos documentários. Sinto que os filmes documentários estão ficando cada dia mais parecidos com a linguagem dos antigos filmes de ficção, enquanto os de ficção tentam roubar sua autenticidade, imitando os documentários. Desconfio da sinceridade de ambos. Prefiro assumir a ficção e resgatar a verdade única que se encontra dentro de cada um de nós.

Como você vê a sua proposta no quadro do atual cinema brasileiro?

Eu não sei como me definir. Tenho aversão a rótulos, porque que eles servem mesmo é para domar e restringir a expressão e o talento. Sonho com um cinema brasileiro moderno e não-colonizado. Temos de investir em linguagem própria, em buscar a nossa verdadeira identidade cinematográfica, sem nenhum preconceito, nem preconceitos cinematográficos. A maioria dos filmes brasileiros que eu tenho visto, quando acabam me deixam uma pergunta no ar: ”E daí?!?!?!” Até o Linha de Passe do Walter Salles tem esse problema no final. Os filmes parecem que não têm mais argumento, apenas um pretexto. Sinceramente (com a exceção de alguns verdadeiros e bons documentários), não consigo ver esse cinema de ficção com empenho social. A não ser que você considere Tropa de Elite um filme com cunho social, o resto para mim tudo é filme ”e daí?”

(Caderno 2, 3/7/08)

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