A Fera na Selva *
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A Fera na Selva *

A sensação de estranheza causada pela versão cinematográfica de A Fera na Selva, de Henry James, pode ser estimulante para o espectador de mente aberta

Luiz Zanin Oricchio

06 de outubro de 2019 | 19h18

 

 

Eliane Giardini e Paulo Betti na adaptação do texto de Henry James

A Fera na Selva produz uma certa sensação de estranheza. O longa, baseado numa novela de Henry James, dirigido e interpretado por Eliane Giardini e Paulo Betti, co-dirigido e fotografado por Lauro Escorel, adota tom teatral e não naturalista.

É o que basta para causar espanto. Décadas de hábito do cinema americano e mais a onipresente estética televisiva fazem que qualquer outro tipo de representação diferente do naturalismo soe “estranho” ao público brasileiro. No caso, a palavra “estranho” não tem qualquer conotação elogiosa. Muito pelo contrário. O filme chegou a ser definido no Festival de Cinema de Gramado, em 2017, como ovni, uma espécie de objeto cinematográfico não identificado.

Bem, ok, mas apenas para ficar nos nomes mais óbvios, Manoel de Oliveira, Jean-Marie Straub, Alain Resnais fizeram diversos filmes geniais, literários e não naturalistas. Muitas vezes teatrais. Em termos de impostação de voz, por exemplo, que outro poderia superar Gente da Sicília, de Straub-Huillet, tirado diretamente do texto de Elio Vitorini? Em texto inesquecível, um crítico chegou a afirmar que Gente da Sicília era uma “invenção de críticos paulistas”. 

Enfim, estranhezas à parte, o texto de James fala de um homem e uma mulher, João e Maria, no caso brasileiro, que se reencontram dez anos depois de haverem se conhecido. Ela lembra que ele lhe fizera uma confidência a bordo de um barco: o de que esperava por um grande e talvez trágico acontecimento em sua vida. E, nessa espera, vivia em uma espécie de angustiante suspensão. Os dois tornam-se amigos, vão envelhecendo juntos, sempre à espera do tal “acontecimento”.

Os diretores ambientam a adaptação na região de Sorocaba, terra natal de Betti e Giardini. É bonito o modo como incorporam a cultura interiorana à planta baixa do edifício proposto por James. E mesmo, no meu caso, conhecendo o “desfecho” por ter lido a novela, curti o andamento da trama, tanto pela beleza dos cenários naturais quanto pelo som das palavras, escandidas por dois atores talentosos. Uma voz em off vai pontuando a trama, e essa voz é de José Mayer.

Imerso em sua cultura de origem, Betti incorpora ao elenco amigos e família. É, também, um filme de amizade, com tudo que de positivo (e negativo) isso pode implicar. E, claro, posso perfeitamente admitir que não se trata de obra para todos os gostos e que as pessoas têm todo o direito de sentir a sua diferença como fato negativo e não gostar dessa sensação de espanto diante do estranho (que, no entanto, pode ser tão enriquecedora para mentes mais abertas).

Em filigrana, Fera na Selva trata-se de um filme vindo de um texto filosófico, que trabalha como a nossa incapacidade de viver o momento e perceber o que se encontra diante do nosso próprio nariz. Olhamos muito para a frente, não percebemos o chão em que pisamos. E quando nos damos conta disso, talvez já seja tarde demais. A mensagem de James é ambígua e triste. Essa fera da selva dá seu bote de maneira sutil e traiçoeira. O filme trabalha essas ideias com justeza e beleza – para rimar.

  • Filme visto no Festival de Cinema de Gramado de 2017

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