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A fascistização da sociedade brasileira

Luiz Zanin Oricchio

23 de julho de 2007 | 19h14

Tenho andado muito preocupado com a guinada à extrema-direita de parte considerável da sociedade brasileira. O e-mail que recebi agora há pouco, e reproduzo abaixo, confirma esses temores. Os eventos que ele relata lembram os tempos da ditadura militar, quando artistas do espetáculo Roda Viva foram espancados por membros do CCC (Comando de Caça aos Comunistas). Ainda não se chegou a isso. Mas o clima não é bom. Leiam abaixo e comprovem por vocês mesmos.

SALMO 91 TEVE SESSÃO

TUMULTUADA NO ÚLTIMO SÁBADO

Com casa lotada, o espetáculo Salmo 91 (dirigido por Gabriel Villela, uma adaptação do jornalista Dib Carneiro Neto para o best seller Estação Carandiru, de Drauzio Varella, em cartaz no Teatro do SESC Santana) teve uma sessão tensa no sábado, 21 de julho.

O clima de desconforto se deu devido à presença da senhora Karina Florido Rodrigues, de 30 anos, que se declarou “ex-assessora do deputado Coronel Ubiratan Guimarães”, o policial que comandou o massacre que resultou na morte de 111 presos no Carandiru, há 15 anos. Na semana passada, ela visitou o blog do Salmo 91 e escreveu um longo texto, sem ter visto o espetáculo, tachando-o de “peça de teatro fazendo apologia ao crime”.

“Não podemos admitir que isso aconteça”, escreveu Karina no blog, “enquanto gritamos aos quatro ventos implorando por justiça aos nossos entes queridos brutalmente assassinados, enquanto lutamos para que o código penal seja alterado, enquanto vivemos revoltados com a impunidade de verdadeiros monstros, temos que abrir os jornais e as revistas que circulam em nosso país e ler que existe uma peça em cartaz que conta as atrocidades de que foram vítimas os bandidos que se encontravam presos.”

Democraticamente, pelo blog, a produção da peça (além do diretor, autor e atores) convidou a senhora Karina para assistir ao espetáculo. No sábado, dia 21 de julho, a senhora Karina esteve à tarde na bilheteria do teatro, comprou seus ingressos e, de maneira intimidatória, em altos brados, dirigiu-se à bilheteira dizendo que estava ali para comprar ingressos para a peça, que era um crime, e que se manifestaria ao final do espetáculo.

A mesma senhora Karina enviou correspondência à direção da unidade do SESC Santana apresentando-se como dirigente de uma ONG defensora dos direitos humanos, e que estaria presente na noite do dia 21 para assistir ao espetáculo ao lado de pessoas vítimas da violência urbana e que queria da gerência da unidade direito de se manifestar ao final da sessão. Gerentes e funcionários do SESC Santana, tomados de surpresa, conversaram com os atores e direção da peça e foi decidido que, ao final da sessão, a senhora Karina poderia se manifestar.

Ela compareceu no sábado com um grupo de pessoas que se diziam familiares de vítimas da violência (algumas também se manifestaram no blog da peça, antes de assisti-la). O grupo era formado por várias pessoas – entre elas, destaque para dois homens carecas (depois identificados como pai e filho) trajando roupas pretas de skinheads (jaquetas de couro com estampas de caveiras e dizeres como black wolf).

No Sesc Santana, Karina e seus amigos compraram ingressos para a primeira fila e mandaram a bilheteira avisar a toda a produção que “a Karina chegou”. Temendo pela integridade física dos atores, a gerência decidiu colocar seguranças e funcionários na platéia. Nesse clima tenso, a peça transcorreu sem incidentes. Mesmo com o grupo de Karina tendo passado todo o espetáculo falando alto e incomodando a platéia mais próxima deles.

Ao final, o ator Pascoal da Conceição se dirigiu à platéia e explicou que a senhora Karina estava presente e havia solicitado o direito de se manifestar, e que o SESC e as pessoas envolvidas com a montagem de SALMO 91 resolveram, de comum acordo, dar esse direito a ela.

Houve uma surpresa geral e imediatamente um senhor da comitiva da primeira fila gritou: “Cento e onze é um número cabalístico. Deviam morrer cento e onze mil”. Na seqüência, o senhor careca, uniformizado com colete de caveira, sentou-se na beira do palco, e se dirigiu à platéia: “Alguém aqui teve um parente assassinado por esses criminosos?”

Um espectador respondeu: “Eu tive, sim. Meu pai foi assassinado. Mas não é por isso que eu vou sair por ai defendendo a pena de morte pra todo mundo”. O senhor careca se fez de surdo e continuou. “Eu vou sair daqui com a mesma dúvida com que entrei: quando vocês riram e aplaudiram, vocês aplaudiram os atores ou os criminosos?”

Convidada pelo elenco a subir ao palco, a senhora Karina disse que a peça mostrava apenas um dos lados da história, mas que os atores eram ótimos e ela não estava ali para criticar esteticamente a peça. Mas ideologicamente. E para defender o – segundo ela – “injustiçado Dr. Ubiratan, que sempre foi um homem honrado, preocupado com as questões de direitos humanos”.

Nesse momento, 80% da platéia se levantou e foi embora. A senhora Karina continuou: “Por que é que vocês não fazem peças falando do lado da polícia?” Uma pessoa da platéia novamente retrucou: “Então escrevam, produzam e façam a sua peça”. O debate prosseguiu com a metade restante da platéia, mais diretor e autor, que também subiram ao palco para, juntamente com o elenco – Rodrigo Fregnan, Ando Camargo, Pedro Henrique Moutinho e Rodolfo Vaz, além de Pascoal da Conceição – se manifestarem diante do público, negando que seja uma peça que faça apologia ao crime e firmando suas intenções humanistas ao abordar tal tema.

Na platéia, foram surgindo cada vez mais manifestações espontâneas e acaloradas de advogados, jornalistas, artistas, entre outros profissionais, todos demonstrando total simpatia pelo espetáculo e tentando apontar equívocos no discurso truculento do grupo de Karina. Ao fim de muita tensão e discussão, Karina e seu grupo se retiraram, enquanto a platéia fez nova sessão de aplausos à equipe do espetáculo.

Porém, no estacionamento do SESC Santana mais um incidente. O rapaz careca, acompanhado pelo pai, fez ameaças a um espectador, que durante o debate disse que era advogado afirmando que o artigo 5º da Constituição Brasileira falava sobre as garantias individuais de todos os cidadãos brasileiros, sem nenhuma distinção, e que era garantida a todos o direito à vida e que não existe na República nada que legitime a pena de morte, ou alguém que possa fazer justiça por si mesmo.

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