A família disfuncional em ‘Sieranevada’
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A família disfuncional em ‘Sieranevada’

Luiz Zanin Oricchio

22 Dezembro 2016 | 12h06

Sieranevada

Em algum lugar de Bucareste, Lary (Mimi Branescu), um médico quarentão, se dirige, com a esposa, a uma cerimônia familiar. O pai, Emil, morreu há um ano e, após esse período, cumpre-se uma tradição religiosa. A família se reúne, um padre ora e benze a casa, um dos filhos veste uma roupa do morto e encena sua reaparecimento. Depois de tudo, é servido um jantar. O filme é de Cristi Puiu e exibe, em alguns momentos, aquele peculiar humor romeno de Os Contos da Era Dourada. É algo sutil, um riso interiorizado e auto-irônico. Algo inimitável.

Há disso em Sieranevada. Mas há também a insistência sobre o tema da família disfuncional, vivendo em meio a uma sociedade distópica. Tudo é estranho e incômodo. E isso ao longo de quase três horas de duração: 2h53 para ser preciso. Durante esse tempo, Puiu desfila seu mal-estar diante da vida, dos outros, do país, do mundo, de tudo.

As cenas exteriores mostram ruas cobertas de neve. A neve suja das cidades, não a neve encantadora das montanhas. A neve que perturba, não aquela que convida à reflexão. Os carros se acumulam pelas ruas estreitas e os motoristas se entredevoram. A disputa por uma vaga de estacionamento pode se transformar em luta mortal entre as pessoas. Ouvem-se os piores insultos entre os litigantes e ameaças de agressões físicas transformam-se em atos.

No interior do apartamento a visão claustrofóbica se acentua. As peças são exíguas para tantos móveis e tanta gente que circula de lá para cá, entre a sala e a cozinha e um dos quartos, onde um bebê dorme e chora de vez em quando. A câmera os acompanha, também de lá para cá, muitas vezes filmando os personagens de costas. Não há refresco, nem nas imagens e, muito menos no que se diz. Pois a cerimônia religiosa, como tantas outras reuniões de família, é também pretexto para a clássica “abertura de baú”, em que traumas e divergências antigas são trazidas à mesa. Cobranças, insultos e, num determinado momento, até escatologia sexual são servidos entre os parentes e agregados. Uma mulher traída desabafa com a mãe. O marido priápico é hostilizado pelas mulheres e visto com compreensão pelos homens. Uma convidada sérvia bebeu às escondidas e vomita pelos cantos. A miséria humana desfila e se exibe, autocomplacente.

Alguns personagens também discutem a atualidade. O fato recente é o atentado em Paris aos jornalistas da revista Charlie Hebdo por extremistas islâmicos. Um dos presentes evoca o 11 de setembro e tudo o que o mundo mudou depois dele. Desfila teorias da conspiração sobre os atentados. Lembra que uma era do medo se inaugurou e que dela jamais sairemos. O mundo parece lhe dar razão. Primeiro usam-se aviões como armas. Agora são caminhões. O que será depois? Naquela célula familiar em Bucareste, o mal-estar difuso do mundo pós 11/9/2001 encontra sua metáfora.

Talvez não seja um filme agradável de ver. Sua duração excessiva tem efeito de saturação sobre o espectador. As situações giram em falso e se repetem. A ideia – parece – é mesmo passar a impressão de que vivemos num pântano e nada nos faz avançar. Não encontramos respostas para as desigualdades sociais; o socialismo fracassou, o capitalismo não cumpre o prometido e não existem alternativas à vista. No filme, as pessoas são incapazes de se entender sobre pontos mínimos. São canhestras nos relacionamentos e não conseguem sequer cumprir um ritual, mesmo porque os rituais já não significam grande coisa e tendem a cair no vazio. As pessoas sequer podem se sentar à mesa, conversar e comer como gente civilizada. É terrível.

Com sua visão impiedosa, Cristi Puiu dialoga com o sarcasmo de Luis Buñuel. Sem ter o gênio do espanhol, e nem seu demolidor riso surrealista, Sieranevada contém poucos pontos de respiro e nenhuma epifania. É sufocante. E dura muito. Faz pensar.

Cotação: bom

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