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A Falecida: uma visão política do subúrbio carioca

Luiz Zanin Oricchio

18 de janeiro de 2010 | 14h32

Tudo que a mulher queria da vida era a morte gloriosa. Tudo que o marido desempregado almejava era a vitória do Vasco sobre o Fluminense na decisão do Campeonato Carioca. Sobre essa superfície de desejos contraditórios, pífios ou absurdos, Nelson Rodrigues construiu um dos seus mais contundentes dramas suburbanos – A Falecida, texto adaptado para o cinema por Leon Hirszman em 1965. O filme é agora lançado em DVD, em cópia recuperada, pela Videofilmes (R$ 54,90), com muitos extras contendo entrevistas e dois curtas do diretor como bônus: Nelson Cavaquinho e Partido Alto.

Fernanda Montenegro, em seu primeiro papel no cinema, interpreta Zulmira, a “falecida” do título. Vemos a atriz desde as primeiras cenas, andando pelas ruas do subúrbio de Sampaio (RJ). Ela busca uma cartomante e esta lhe diz que ela tem uma desafeta na vizinhança, uma loura, e deve tomar cuidado. Zulmira é casada com Toninho (Ivan Cândido), desempregado que vive entre o salão de bilhar e a expectativa de um jogo decisivo do seu time. O casal vegeta no limite do desespero, mas sem a conotação existencial que daí tiraria um filme francês. Tudo é mais cru e menos intelectualizado. Se o marido encontra na paixão pelo futebol a sua válvula de escape, a mulher parece roída pelo tédio, pela culpa e desejo de morte. Desenvolve uma morbidez que parece verossímil embora traga os traços hiperbólicos desenhados por Nelson Rodrigues.

É verdade que Leon Hirszman, marxista de formação e cineasta de rara contenção formal, se esforça para desidratar um pouco os exageros rodriguianos. Se os vícios e baixezas da pequena burguesia aparecem com nitidez, seu relevo é esculpido por uma direção enxuta e pela maneira quase documental como o subúrbio é retratado como o lugar da falta de horizontes por excelência. Por outro lado, vemos o Nelson Rodrigues habitual surgir claramente nos dois sócios da funerária, os venais e desbocados papa-defuntos interpretados por Nelson Xavier e Joel Barcellos. Aparece no ricaço cafajeste vivido por Paulo Gracindo. E também, de certa forma, no rosto chupado de Zulmira, que se ilumina apenas quando imagina a própria morte e um enterro de luxo, “como este bairro jamais viu”. É seu maior desejo. O único, de fato: um enterro de parar o trânsito, com caixão de luxo e carro funerário com penacho e tudo, para fazer inveja à vizinha odiada. Enfim, a história tem aquilo que em geral se espera de Nelson Rodrigues – essa fronteira mal definida entre o trágico e o cômico, que ele atravessava, de um lado a outro, como ninguém sabia ou soube fazer.

Leon busca uma leitura pessoal da peça, e talvez um tanto diferente daquela imaginada pelo dramaturgo. Parece se compadecer dos personagens, tanto de Zulmira como de Toninho, e neles vê duas vítimas de um processo adiantado, e no fundo letal, de alienação. Suas vidas de pouco valem, na medida em que eles não têm qualquer controle sobre elas. Toninho, ao se dedicar de maneira fanática ao futebol, não tem olhos para o que ocorre à sua volta. Sua mulher definha e ele não percebe. Desempregado, não ocupa qualquer lugar social, mas não liga o vazio da existência ao fato de ter sido expelido do mundo do trabalho. Zulmira afunda em sua obsessão autopunitiva, sem se dar conta de que o que a corrói é a repressão sexual e, portanto, a culpa e o preço que se impõe pelo que considera seu pecado.

No fundo, Zulmira só existe em função do que os outros pensam dela. Daí a importância que a “vizinha loura” desempenha em sua vida – tanto a de testemunha do seu mau passo como do seu hipotético triunfo, que virá, segundo sonha, sob a forma do enterro luxuoso. Zulmira vive (e morre) para Glorinha, e não para ela mesma. Toda essa história, para Nelson, não passava de uma tragicomédia; para Leon era o modelo do drama da consciência alienada.

Tal discordância não seria de grande importância caso o filme tivesse sido um êxito de bilheteria. Mas não foi. Fracassou inapelavelmente. Lançado de maneira errada, durante o carnaval, foi ignorado solenemente pelo público, ocupado em outras coisas que não a alienação da vida suburbana. O fracasso deu credibilidade à história de que Nelson Rodrigues detestara o filme. Acusava Leon de haver expurgado o humor do texto, mas depoimentos presentes nos extras do DVD permitem matizar essa história, tida como verdade absoluta.

Eduardo Coutinho (diretor de Cabra Marcado para Morrer e Jogo de Cena), roteirista de A Falecida, diz que Nelson acompanhava a filmagem, via os copiões e gostava do que assistia. O mesmo afirma Joffre Rodrigues, filho de Nelson e um dos produtores do filme. De acordo com eles, Nelson se entusiasmava ao ver Fernanda Montenegro em cena – ela estreava no cinema mas era já figura reconhecida da cena teatral, tendo, inclusive, participado da montagem de O Beijo no Asfalto, do próprio Nelson, alguns anos antes. Nelson achou, verdade, o filme meio seco, meio triste. Mas só passou a detestá-lo para valer depois do fracasso. Afinal, havia botado muito dinheiro na produção. “Perdi um apartamento e meu pai teve de vender uma casa para pagarmos as dívidas”, conta Joffre. Quando a opção estética de Leon pesou no órgão mais sensível do ser humano – o bolso – Nelson passou a odiar a adaptação.

No entanto, ela entraria para a história do cinema como uma das melhores já feitas tendo como inspiração a sua obra de dramaturgo. Em aparência, Nelson é muito fácil de verter para o cinema. Seus personagens são vívidos, visuais, os diálogos antológicos, as situações cheias de um sabor escabroso. Essa mesma facilidade é responsável por muitas derrapagens, que enfatizam o lado paroxístico, levando o texto para o humor escatológico e não raro apelativo. Arnaldo Jabor é a exceção que conseguiu, em Toda Nudez Será Castigada, assumir plenamente o espírito da obra de Nelson sem vulgarizá-la.

Já Leon, um outro tipo de cineasta, mais cerebral, mais analítico, optou por “esfriar” essa obra. Tenta colocá-la em perspectiva. Sem se prender a dogmas estéticos como os do realismo socialista, procura explicitar uma situação social com suas contradições internas, nas quais os personagens se debatem sem grande noção das circunstâncias que os movem. Fez o mesmo em filmes posteriores como São Bernardo (1972) e Eles não Usam Black-tie (1981). Em A Falecida, o distanciamento e o tom analítico vêm menos nos diálogos que na maneira como o subúrbio é retrato no P&B de José Medeiros, na música econômica (Radamés Gnatalli sobre o tema de Luz Negra, de Nelson Cavaquinho), na decupagem sóbria dos planos, na câmera de mestre Dib Lutfi.

Racional, sim, mas a emoção transborda através da comovente Zulmira de Fernanda Montenegro, e do contraditório Toninho de Ivan Cândido. Leon é político, nunca discursivo; social, e jamais doutrinário.

(Cultura, 17/1/10)

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