A “faca” de Rossellini disseca absolutismo
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A “faca” de Rossellini disseca absolutismo

Luiz Zanin Oricchio

24 Fevereiro 2010 | 08h35

La prise de pouvoir par Louis XIV

Hoje em dia nenhum produtor deixaria que um filme se chamasse O Absolutismo – A Ascensão ao Poder de Luis XIV. Parece livro didático de História. No entanto, Roberto Rossellini não tinha medo do didatismo, essa palavra que ganhou conotação negativa, como se ensinar algo a alguém fosse proposta vagamente indecorosa, uma espécie de atrevimento. Como se não houvesse no mundo gente capacitada a ensinar e gente com necessidade de aprender. Enfim, hoje se acha que ninguém ensina nada a ninguém e todos aprendem sozinhos, ou já nascem sabendo, o que explica muita coisa do mundo atual.

Já Rossellini tinha outro ponto de vista. Depois de ter se tornado o nome principal do neorrealismo e feito muito sucesso dirigindo sua mulher, Ingrid Bergman, entendeu que o cinema havia sucumbido ao estrelismo e não tinha mais grande coisa a oferecer ao público. Voltou-se para a televisão e, para esse veículo, dirigiu uma série de filmes didáticos, entre os quais as vidas de grandes filósofos como René Descartes, Sócrates e Blaise Pascal. Esses filmes notáveis ficaram fora do alcance do público brasileiro até que a Versátil passou a lançá-los de maneira sistemática. É um serviço e tanto que se presta às pessoas que gostam de cultura. Luis XIV (R$ 49,90) faz parte da série histórica de Rossellini e, para alguns críticos, é o melhor entre todos.

De fato, trata-se de extraordinária lição de História, dada com todo o rigor e despojamento. Começa com o cardeal Mazarin (Giulio Cesare Silvani) em seu leito de morte, dispondo os temos de sua sucessão. Mazarin foi uma eminência parda do reino, homem rico e de pensamento maquiavélico, quer dizer, um pensador do poder. Antes de morrer, faz suas recomendações ao jovem Luis XIV (Jean-Marie Patte), que ainda não assumira de fato o reino. Há uma disputa a ser travada nos bastidores e que implica escolher um aliado, Colbert, para vencer um rival, Fouchet. As tramas palacianas ensinam muito sobre o xadrez político da era de Luis XIV e, na verdade, de todas as eras. É a política, a arte da tomada e da manutenção do poder, essa droga pesada da humanidade.

Luis XIV foi conhecido como Rei Sol, por sua vaidade. Foi o homem de Versalhes, o homem da Corte. O interessante é ver como essa futilidade foi usada como forma de ascensão ao poder e linha demarcatória entre os ungidos e os excluídos. Os hábitos, as maneiras à mesa, os trajes luxuosos ? tudo isso são formas não apenas de expressar o status social e o poder, mas de exercê-los. Essas observações se constroem no filme sem qualquer apelo retórico. Luis XIV podia ser afetado e meio rococó. Mas Rossellini era simples e direto – como a lâmina bem afiada de uma faca.

(Caderno 2, 24/2/10)

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