As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

A extinção da política: nem PT nem PSDB

Luiz Zanin Oricchio

16 de julho de 2007 | 16h51

A extinção da política no mundo contemporâneo – é dela que trata,usando apenas uma das palavras da sentença, o novo livro do filósofo Paulo Arantes. Extinção (Boitempo,314 págs.,R$43)compõe-se de 21 artigos, lançados em publicações diferentes. Revistos e alguns ampliados pelo autor, guardam entre si uma sólida – e às vezes terrível – coerência. Sólida, porque os que foram alunos de Arantes na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP sabem quanto ele preza o rigor. Terrível,porque,como também é sabido,Arantes é um ensaísta radical, adepto da “crítica impiedosa”, árdua e saneadora,de que falava Marx.

Assim, esses escritos aparecem, em bloco, como uma disciplina do desencanto. Tendemos a concordar com parte deles,e discordar do resto. Quem pensa diferente de nós fará a leitura inversa. É uma coerência crítica, difícil de ser mantida.

No entanto, os textos funcionam como um mecanismo de lógica implacável, articulando, como diz no prefácio Laymert Garcia dos Santos “a estratégia das forças vencedoras da era da globalização no plano da geopolítica e o modo como essa mesma estratégia se impõe e se compõe com a forças internas da sociedade brasileira”.

Do todo ao particular; da aldeia global à aldeia propriamente dita, Arantes encontra ecos desse estado de beligerância permanente como decorrência deste estágio histórico no qual prevalece a potência única.O que implica a redefinição (unilateral) do direito internacional (como no caso da invasão do Iraque sem aval da ONU) e também das relações tradicionais entre centro e periferia.

Vivendo sob o domínio da estrita necessidade econômica, a política,ou o que resta dela à esquerda ou à direita, resume-se à gestão consensual da nova ordem.

Sob essa lente rigorosa, Arantes esmiúça, de forma impiedosa, tanto os governos do PSDB quanto os do PT. Fala da “crapulização dos ricos” no reinado Collor, do “glamour da era tucana, conferindo brilho intelectual e verniz sociológico à adaptação predadora à nova ordem econômica” e batiza o período Lula de ” estrago conclusivo”.

Põe uma estaca no coração da esquerda ao escrever com todas as letras que “o voto que elegeu Lula foi majoritariamente despolitizado” e que, com a frustração contemporânea, veio à luz “um sentimento cínico do mundo”.

Junto com ele, uma onda reacionária, com o desrecalque de preconceitos e ódios sociais por parte das classes médias: “Agora o povo pobre, além de feio, sujo e malvado, é também corrupto.”

Não visualiza futuro político para Lula, salvo um populismo raso, ancorado no marketing. Mas acha os dois partidos,no fundo, muito parecidos: “Ainda têm tudo para se entender,são tão semelhantes que estão se matando no momento.”

Não é livro para se ler com espírito frágil. Quer dizer, é absolutamente indispensável, em nome da lucidez.

(Estadão, Caderno Cultura, 15/7/07)

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.