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A ética e a bola

Luiz Zanin Oricchio

20 de março de 2012 | 17h03

Houve pênalti ou não naquela saída do goleiro Rafael do Santos para dividir a bola com Luis Fabiano? Para mim, é um dos lances mais interessantes desse grande jogo.

Na hora fiquei em dúvida, mas ouvi de vários comentaristas que o pênalti havia sido tão óbvio que nem valia a pena discutir o assunto. Um disse que havia sido “muito pênalti”, com aquela curiosa carga de certeza que muitas vezes caracteriza nossa profissão. Então, tudo bem.

Só que ontem de manhã li neste mesmo caderno matéria de Bruno Deiro e Daniel Akstein Batista em que o próprio Luis Fabiano chamava o pênalti de “duvidoso”. Admite que “deixou a perna” para ser tocado pelo goleiro. Caiu antes do choque, conscientemente e, também conscientemente, buscou o contato. Quer dizer, foi uma malandragem.

A lei fala em intenção de cometer a falta. O goleiro saiu para defender de maneira atabalhoada – esse foi seu pecado. Mas ao que tudo indica não tinha qualquer intenção de derrubar o atacante. Este, pelo contrário, tinha toda a intenção de ser derrubado. Nessa interpretação dos fatos, autorizada pelo próprio atacante, não apenas não foi pênalti como Fabiano deveria ter sido advertido por tentativa de simulação. Mas como culpar o árbitro por um teatro tão bem feito que iludiu os nossos melhores colunistas?

A questão maior sobre esse lance diz respeito à ética, muito mais do que à sua importância sobre o resultado, já que o São Paulo jogou melhor e justificou amplamente a vitória. O problema é saber o que significa fingir uma penalidade, ou seja, dar um drible na lei e em seu cumpridor, o juiz.

Cansei de ver grandes jogadores usarem a zona cinzenta da regra a seu favor. Aliás, cavar pênaltis é tão velho quanto o rolar da bola. O maior de todos, Pelé, era um deles. O Rei o fazia com a mesma maestria com que aplicava um drible, dava um chapéu ou marcava um gol de bicicleta. Às vezes enganchava seu braço no braço do zagueiro para ser “derrubado” na área. Usava, como o Fabuloso usou no domingo, a sutileza da lei para dela servir-se em favor do seu time. Eis a brecha: não se julgam fatos objetivos, e sim intenções. E de que maneira se expressam as boas ou as más intenções? Como não podemos entrar na cabeça das pessoas para visualizá-las, só nos resta, e aos árbitros, supor que quiseram fazer isto ou aquilo.

Daí a imensa riqueza do futebol e sua função de comentário sobre a vida em geral. O futebol é ao mesmo tempo espelho e reflexo da vida social. Incorpora seus vícios e virtudes e os revela, sob forma simplificada. Afinal, a nossa legislação comum também não faz a distinção entre crimes culposos e dolosos, ou seja, com ou sem a intenção de produzirem dano ao próximo? No fundo é a mesma coisa.

O riso matreiro do Fabuloso tem muito a dizer sobre nós mesmos, e não apenas no âmbito do futebol. Num mundo perfeitamente ético, sua atitude deveria ser condenada. No entanto, é aceita, e até elogiada como saudável malandragem, justamente aquela que caracteriza o nosso futebol (apenas o futebol?). Isso, num mundo perfeito. Mas quem disse que o mundo é perfeito?

(Coluna Boleiros)

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