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A ética da represália, em Lady Vingança

Luiz Zanin Oricchio

14 Maio 2007 | 13h44

Um filme como Lady Vingança, do coreano Park Chan-wook, pode provocar reações contraditórias no espectador. Não se pode deixar de admirar, por vezes, a elegância da câmera, os movimentos sutis, o uso da lente como escrita do cineasta. Por outra, como acomodar essa finesse formal a um exercício de violência sanguinolenta que, em alguns momentos, toca os limites do trash? É comum, pelo menos neste filme, Park Chan-wook sublinhar essa descontinuidade com música clássica de rara suavidade, como se buscasse uma maior intensificação, pelo recurso da ironia, ou ainda, como se precisasse atenuar de alguma forma aquilo que mostra de maneira atroz e usasse a trilha para dizer que, afinal, nada é tão sério assim. Enfim, é um cinema de incômodo, o mesmo de Old Boy, seu outro longa já lançado por aqui.

Ambos, aliás, fazem parte de uma trilogia (o outro título é Symphaty for Mr Vengeance, ainda inédito no Brasil) sobre os temas do crime e da represália. A pergunta que parece se fazer Park Chan-wook é de resposta dificílima – qual a reparação possível para crimes hediondos? Assim é em Old Boy, no qual um personagem passa encarcerado anos e anos, sem saber o porquê, e ocupa o tempo preparando-se para uma eventual vingança. Preparando-se inclusive fisicamente para se transformar numa máquina de matar. Para descobrir que ele também sofreu porque alguém quis se vingar dele. E assim o mundo caminha.

No caso de Lady Vingança, ela é a mulher que passa 13 anos na cadeia e depois de sair só o que deseja é acertar contas com o homem responsável por sua prisão. Há algumas seqüências bastante difíceis de tortura, mulheres violentadas e crianças trucidadas – enquanto as imagens dos crimes são mostradas compulsoriamente aos pais delas para convencê-los de que, por sua vez, eles deverão, também, usar as próprias mãos – e da maneira a mais cruel possível – para purgar o mal que sofreram.

É curioso observar a reação da platéia porque, quando a violência chega ao paroxismo, quer dizer, a um ponto pouco tolerável, ela passa a ser engraçada (ou sentida como tal) e produz risos. Talvez como forma de defesa. É assim quando o grupo de pais ofendidos se veste com capas de chuva transparentes para proteger-se dos respingos de sangue do homem que irão trucidar. Nessa seqüência, em particular, o explícito é evitado na maior parte das vezes; mas o que existe de implícito já parece suficiente.

Resta saber se com tanta estilização visual e sonora, e tantos hectolitros de sangue cenográfico, Park Chan-wook consegue levar adiante uma discussão sobre essa obscura paixão humana que é a vingança. Nada parece mais incerto, mesmo porque sua construção de personagens parece plana como uma mesinha de centro. E, depois de impressionar durante algum tempo, esse exercício de estilo parece girar em falso. Por falta de mais substância, os filmes não deslancham. Ou, pelo menos, ficam aquém do que prometem de início, mesmo que, em termos de realização cinematográfica, tenham pontos interessantes.

Na verdade, há outra maneira de valorizar esse tipo de filme, discutindo a questão da representação da violência. Por exemplo, entrou ontem em cartaz o brasileiro Baixio das Bestas, de Claudio Assis, que, em muitos aspectos, é ainda mais violento do que Lady Vingança. Acontece que a função da violência em Baixio se subordina ao interesse social. Ela entra, de maneira crua, e como parte integrante da linguagem cinematográfica, como maneira de levar ao espectador a sensação sufocante do que representa ser mulher (e pobre) num dos cafundós desassistidos deste país. Parece, portanto, uma violência eticamente justificável.

O termo se aplica menos a Lady Vingança e a filmes do gênero. Parece o tempo todo que a violência é um exercício lúdico usado por Park Chan-wook. Um pouco à maneira desse grande cultor da violência estetizada que é Quentin Tarantino. Pelo menos, Tarantino não esconde o jogo – várias vezes disse, em entrevistas, que a violência era bela para ser filmada. E ele o fazia como ninguém, basta ver seus Kill Bill 1 e 2. Há algo aí que pode ser questionado nesse uso do sofrimento humano como num parque temático. Mas tudo isso é matéria para discussão.

(SERVIÇO)Lady Vingança (Chinjeolhan Geumjasshi, Coréia do Sul/2005, 112 min.) – Drama. Dir. Park Chan-wook. 14 anos. HSBC Belas Artes 5 – 14 h, 16 h, 18 h, 20 h (sáb. também 22 h). Morumbi Cine TAM 1 – 13h10, 15h20, 17h30, 19h40, 21h50 (sáb. também 23h50). Unibanco Arteplex 6 -13 h, 15h10, 17h20, 19h30, 21h40 (sábado também 0h; 2.ª não haverá 21h40). Cotação: Bom