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A Estrela Distante de Roberto Bolaño

Luiz Zanin Oricchio

15 de dezembro de 2009 | 22h14

Em uma de suas últimas entrevistas, Roberto Bolaño (1953-2003) disse que se não fosse escritor gostaria de ter sido detetive criminal. Em se tratando de Bolaño, chegado à paródia, à ironia e às pistas falsas, essa afirmação, como outras, não pode ser levada ao pé da letra. Mas talvez forneça uma pequena pista para entender o fascínio que tem exercido a literatura desse chileno, morto prematuramente de uma doença no fígado aos 50 anos. Bolaño trata de muitas coisas em suas obras, mas fala, principalmente, de literatura. Os seus heróis são heróis literários, o que poderia redundar em tramas reservadas aos iniciados. Não é assim. E não é porque as histórias em que esse literatos (em geral poetas) se envolvem podem ser lidas como tramas detetivescas.

Há sempre um – em geral mais de um – mistério que os personagens se empenham em resolver. Como nas tramas policiais, também a “verdade”, nos textos de Bolaño, é algo de virtual, a ser perseguida sem que se tenha qualquer certeza de que se poderá contemplá-la por completo. A verdade parece estar sempre na linha do horizonte, afastando-se à medida em que dela parecemos nos aproximar.
É assim neste intrigante romance A Estrela Distante, que acaba de ser lançado pela Cia das Letras, editora que publicou em português outros livros do escritor como Os Detetives Selvagens, Noturno do Chile, Pista de Gelo, Putas Assassinas e promete, para o ano que vem, o testamento de Bolaño, o gigantesco 2666, com cerca de 1200 páginas.

Trama detetivesca? De fato, quem seria essa pessoa dupla de que trata o livro? O candidato a poeta Alberto Ruiz-Tagle, ou talvez o tenente da Aeronáutica Carlos Wieder, escritor e também torturador e assassino após o golpe de Pinochet? Quem sabe a verdade sobre esse personagem? De certa forma, em A Estrela Distante, a narrativa será movida pela tentativa de resposta a essa pergunta. A perseguição – metafórica e literal – a esse personagem, que se afasta do leitor/narrador como se afastam cada vez mais as galáxias entre si.

O título faz menção a essa narrativa em fuga, e remete ao fenômeno cósmico da recessão das galáxias, com os conglomerados de estrelas cada vez mais distantes uns dos outros. No livro, personagens se desvanecem à medida em que deles parecemos nos aproximar. Narrativa em várias vozes, embora haja uma, predominante, a do narrador, também ele um candidato a poeta, um dos alteregos do próprio Roberto Bolaño: Arturo Belano, que surge em Estrela Distante e reaparece no livro que torna Bolaño uma celebridade do meio literário – Os Detetives Selvagens.

Narrativas saem de narrativas, e essa é uma das características marcantes da obra de Bolaño, um pouco à maneira de Borges e dos pós-modernos. Assim, a história de Tagle-Ruiz/Carlos Wieder brota do último capítulo do primeiro romance publicado de Bolaño – La Literatura Nazi en America (1996), ainda inédito em português. Nele, Bolaño traça uma série de perfis imaginários de supostos simpatizantes do nazifascismo na América do Sul – à maneira de Vidas Imaginárias (1896), do francês Marcel Schwob e da História Universal da Infâmia (1935), de Jorge Luis Borges – parentesco literário apontado pela professora Laura Janina Hosiasson em seu ótimo artigo na revista Brasileiros.

É bom que se diga que, em Bolaño, esse gosto pelas vidas imaginárias e citações ocultas se complementa com a presença de personagens e fatos reais, inclusive do meio literário, como o poeta chileno Pablo Neruda e o mexicano Octávio Paz, apenas para citar os mais famosos entre uma galeria de outros escribas. A eles se unem figuras soturnas de militares e ditadores, em especial a do general Augusto Pinochet, que derrubou o presidente Salvador Allende em um golpe de Estado dia 11 de setembro de 1973. A data marca a grande fratura histórica e cultural do Chile, que vitima toda uma geração da qual Bolaño faz parte.

A participação do Bolaño real nos desdobramentos do golpe é controversa. Há a versão que Bolaño, já radicado no México desde a adolescência, teria voltado ao Chile durante o governo da Unidade Popular, quando então foi surpreendido pelo golpe. De acordo com essa variante da história, Bolaño teria sido preso e libertado pela milagrosa interferência de amigos que apoiavam o novo regime. Dessa forma, teria escapado para a Espanha, onde viveu e escreveu até morrer. Outras correntes afirmam que essa versão seria baseada mais na trajetória dos alteregos literários do que em fatos reais. Enfim, dada a repercussão internacional (inclusive nos Estados Unidos, em geral pouco receptivos a autores de fora do cânone anglo-saxão) da obra de Bolaño, não deve demorar a surgir algum biógrafo para colocar os pontos nos iis.

Se é que um esclarecimento total será possível pois, ao que parece, o próprio Bolaño cultivava certa mitologia em torno de si mesmo. De qualquer forma, a sua parece ter sido uma trajetória de certa forma clássica de um jovem candidato a artista na América Latina dos anos 1960 e 70. Jovem de esquerda, cuja existência é cortada por uma ditadura militar, parte para uma existência precária em vários países, a obra sendo escrita na penumbra, até que (e aqui as coisas começam a sair do previsível) os textos começam a ser publicados, vêm o reconhecimento, os prêmios, o sucesso repentino, a doença e a morte não menos inesperada. Não é culpa sua se a sua própria vida se pareça tanto com a de alguns dos seus personagens.

O mais notável é que, em meio a esse suposto caos existencial e político, Bolaño pudesse escrever febrilmente. Ao morrer, deixou quatro livros de poesia, três de contos, doze romances e alguns dispersos como textos de conferências, ensaios e artigos menores. Seu romance póstumo – 2666 – tem cerca de 1.200 páginas. Bolaño havia projetado lançá-lo em três volumes, mas a família preferiu publicá-lo em um só livro.

Produção grande e concentrada no tempo – e também intensa quando tomada em cada texto em particular. Bolaño escreve como tomado por uma febre (o que não exclui o trabalho intenso de elaboração que neles se pressente). Os personagens se sucedem e engendram histórias particulares, que ganham foros de autonomia, mesmo numa obra sintética como Estrela Distante, de apenas 144 páginas. À essa capacidade imaginativa se somam um domínio vocabular invejável e um corte de frase notável. O texto flui e arrasta consigo o leitor. Se Bolaño mescla personagens reais e imaginários, também mistura os vários níveis possíveis do idioma. Pode passar da norma culta ao estilo popular, e mesmo ao chulo, com imensa facilidade. Passa do realismo ao registro onírico, e mesmo alucinatório, com naturalidade. Joga-se na estrutura labiríntica da narrativa, mantendo o controle sobre o conjunto com mão de mestre. Em suma, é um escritor raro e estupendo.

Mais ainda porque, irônico e paródico, não se esgota em jogos de linguagem estéreis, mas permite que a experiência histórica infiltre-se generosamente pela narrativa. Experiência histórica da dor, transformada em sarcasmo quando, por exemplo, em Noturno do Chile, um professor leciona marxismo-leninismo à junta militar para que ela possa melhor combater o inimigo. Ou em Estrela Distante, nessa radical estetização da barbárie, quando o dublê de poeta e torturador promove uma exposição de fotos das suas vítimas. Tem-se aqui, nessa passagem do livro, uma experiência literária tão avassaladora como aquela proporcionada por O Náufrago, de Thomas Bernhardt. Bolaño instala-se na dissonância radical da História e a transforma em prosa poética iluminadora.

(Caderno 2, 15/12/09)

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