A Espera de Pirandello
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A Espera de Pirandello

Luiz Zanin Oricchio

06 de fevereiro de 2017 | 21h22

espera

Em A Espera, o diretor Piero Messina trabalha no que se poderia chamar de uma dramaturgia da ausência. Em seu sentido radical, o desaparecimento definitivo, a experiência da morte. Por isso, em suas cenas iniciais vemos um velório que se realiza num vilarejo no interior da Sicília. Anna (Juliette Binoche) está enterrando alguém, que não sabemos quem seja. Recebe as condolências de todos.

No dia seguinte, chega à sua casa a jovem Jeanne (Lou de Laâge), namorada de Giuseppe, filho de Anna. Ela combinou com o rapaz de se encontrarem ali. Mas Giuseppe não está. E a mãe insiste com a moça para que ela fique, pois ele chegará em breve. Não há outras pessoas na casa enorme, a não ser Anna, um velho empregado e, agora, Jeanne. O clima é de mistério e de uma dor latente, que pulsa sem que seja verbalizada.

O filme é baseado em Pirandello, o grande escritor siciliano de Sete Personagens em Busca de um Autor, O Finado Matia Pascal e uma infinidade de contos, a maior parte deles ambientada na Sicília profunda. Pirandello era filho de Agrigento e seus relatos se amoldam magnificamente ao cinema, bastando lembrar de Kaos, dos irmãos Taviani, e de Matia Pascal, de Mario Monicelli.

Há uma “ambiência” pirandelliana clássica, feita de algum grau de absurdo, mandonismo, paisagens magníficas, sangue, mulheres enlutadas, tensão social e sexual reprimida. Ingredientes que têm seu sabor realçado por alguma dose de humor que, como outros condimentos, tem de ser usado com parcimônia para não desandar o prato.

Esse clima, em parte, está presente em A Espera. Há um mistério em volta de tudo e não sabemos de fato se Giuseppe voltará ou não. E, neste caso, por que a  mãe esconde o fato da namorada. Todos parecem saber de tudo, menos Jeanne que acaba por se aproximar de Anna por alguns pontos comuns. A começar que ambas são francesas. Depois há entre elas um homem, Giuseppe, filho de uma, namorado de outra. A ausência de Giuseppe estrutura a relação entre ambas e é, na verdade, a ausência mais presente de todo o filme.

Um certo esteticismo pode perturbar às vezes, como acontece com obras trabalhadas em excesso. Binoche é sempre grandiosa, mas o papel não se presta a grandes transbordamentos emocionais. Messina trabalha mais na contenção, nos subentendidos, nas sugestões, mais nas dúvidas que nas certezas. Um filme bastante interessante, embora um tanto frio.

 

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