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A escola e o lago

Luiz Zanin Oricchio

25 de fevereiro de 2009 | 14h03

A Nenê da Vila Matilde caiu e o lago da Aclimação secou. Foram meus desastres particulares de carnaval, se é que o termo desastre não é um tanto exagerado. Mas vamos por partes, diria Jack.

Não é que eu seja exatamente um torcedor da Nenê, pois há muitos anos não vou à escola. Ia nos tempos de estudante da USP. Seu Nenê tinha uma política interessante de aproximação com a universidade e convidava os alunos para os ensaios. Acho que entrávamos de graça. Lá íamos e nos divertíamos à beça. Um amigo, Claudião, chegou a ser convidado para diretor cultural da escola, seja lá o que fosse esse cargo. Desde então, cultivei a simpatia pela Nenê, que foi parar no segundo grupo. Tomara volte no ano que vem. À distância que seja, continua sendo a minha escola. E, desse modo, também fui rebaixado.

O lago? Criei-me ao lado dele, por assim dizer. Nossa casa, onde até hoje vive minha velha mãe, fica a poucas quadras do parque da Aclimação. Era onde a gente ia jogar bola, passear, e etc. Naquele tempo havia dois lagos, um maior, outro menor. Este menorzinho foi aterrado. Pescava-se ali naquele tempo, mas éramos obrigados a fugir do fiscal, porque era proibido.

Ia sempre lá com amigos, mas também sozinho, quando cresci um pouco e descobri que doses homeopáticas de solidão não fazem mal a ninguém, pelo contrário. Lembro de um caramanhão sob o qual eu costumava escrever na adolescência. Ficava bem na beira do lago e nem sei se ainda existe. Passo anos inteiros sem visitar o parque da Aclimação. Outro dia fui lá. Pareceu-me pequeno, uma ilusão comum quando visitamos lugares da infância, que nos pareciam infinitamente maiores porque nós próprios éramos muito menores. Mas talvez seja apenas uma avaliação objetiva das devastações da especulação imobiliária, que conseguiu avançar sobre o parque até ser contida.

De modo que fiquei consternado vendo o lago seco, ou melhor, transformado em charco no qual se debatiam peixes e aves. Achei bacana o mutirão dos frequentadores para salvar um cisne. Prova de que existe o impulso da solidariedade ainda latente nas pessoas. Um demônio em mim lembrou que esse impulso tão forte já não é despertado quando nossos próprios semelhantes se encontram em dificuldade.

Mas essa é outra história e, afinal, hoje é quarta-feira de cinzas.

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