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A era das trevas

Luiz Zanin Oricchio

29 Fevereiro 2008 | 10h50

Como Denys Arcand é um mestre da ironia, deve estar rindo ao saber que seu L’Âge des Ténèbres recebeu no Brasil o polido (e mentiroso) título de A Era da Inocência. Não poderia ser mais enganoso, mesmo porque a época que Arcand retrata nada tem de inocente. Pelo contrário, é a era de um mundo que já viveu demais. Está gasto e esgotado pelo esforço (inútil) de conciliar contradições e interesses divergentes. É um mundo da balbúrdia, que perdeu viço e razão de ser.

Por isso, não espanta que o protagonista, Jean-Marc Leblanc (Marc Labrèche), busque refúgio na fantasia. Porque, no mundo real, pouco existe para ele. A mulher não se dá conta de sua existência, empenhada em bater recordes em seu negócio imobiliário. Seus filhos não o escutam porque estão interessados em seus próprios problemas e mantêm os ouvidos ocupados com iPods ou joguinhos eletrônicos. Os congestionamentos de trânsito são infernais e Leblanc chegou à conclusão de que seu emprego – assistente social para os desamparados de Montreal – é de uma perfeita inutilidade. Faz parte do mundo de Leblanc uma versão idiotizada do politicamente correto. Seu melhor amigo é negro mas não se pode dizer que ele “trabalha como um negro”. Leblanc enfrenta ainda uma ofensiva fascista contra o tabagismo. Numa das cenas hilárias, ele e colegas se escondem para fumar, como crianças no recreio, enquanto são perseguidos por uma patrulha antitabaco, com guardas armados e cães farejadores.

A ironia corta o tempo todo, e deixa pouca coisa em pé desse majestoso edifício das ilusões contemporâneas. Uma delas nos diz respeito de perto. Arcand não lança seu olhar corrosivo sobre um canto qualquer do mundo, sobre um país em dificuldades ou “em desenvolvimento”, como hoje pudicamente se diz. Ele monta seu ponto de observação em seu próprio país, a maravilha das maravilhas do Primeiro Mundo, objetivo a ser alcançado pelos pobres do planeta.

País rico, industrializado, de grande território, população administrável, alto índice de qualidade de vida – mas e daí?, o filme parece se perguntar. O que fizemos a respeito da nossa própria felicidade? Arcand deixa claro que o mercado como princípio e fim, a competição desenfreada, a luta de todos contra todos, o ethos acumulativo sem conseqüências – tudo isso está levando a um beco sem saída. Nem mesmo os atenuantes a essa vida louca escapam. Arcand retrata os homens tentando se isolar pelo sufoco de viverem sempre em multidão. Vê uma ridícula tentativa de volta a um medievo fake como passatempo de grã-finos, tão entediados como desesperados. Aliás, uma das personagens patéticas é a pobre coitada que se acredita princesa e assistiu a O Senhor dos Anéis 60 vezes “porque é a maior obra-prima da arte contemporânea”.

Sem saída, então? Nem tanto. Mas o espectador terá de esperar pelo final para ver e sentir o pequeno, porém belo, consolo que Leblanc poderá tirar desse inventário de desastres.