A energia de ‘Grand Central’
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A energia de ‘Grand Central’

Luiz Zanin Oricchio

26 de janeiro de 2014 | 19h15

Nem mesmo quem a curtiu demais em Azul É a Cor Mais Quente viu Léa Seydoux tão sensual quanto neste Grand Central, de Rebecca Zlotowski. Com seu shortinho apertado e corte de cabelo à la garçonne, Léa é Karole, empregada em uma usina nuclear na qual vem trabalhar o também esperto Gary (Tahar Rahim, de Um Profeta).

Gary chega à usina depois de haver tentado vários outros trabalhos e ter sua carteira furtada num trem. É pau para toda obra e, embora não mostre preparo, é aceito para o trabalho temporário no reator. Mas lá, além do perigo onipresente da radiação, há também Karole, transbordante de hormônios e casada com um colega que não seria muito inteligente colocar em fúria.

Grand Central é um filme de energia. Tem pulsão, para não usar outro termo. O par principal – Gary e Karole – é explosivo, sem trocadilhos. Léa, além de linda, é intensa na tela, como sabe quem conhece seu trabalho. O mesmo pode ser dito para Tahar Rahim, um desses atores que passam credibilidade e impulso a cada sequência. Funcionam muito bem juntos.

Mas a ideia vai além de um mero imbróglio amoroso. Há toda a situação tensa no interior da usina, muito bem filmada com suas dependências assustadoras pelas dimensões. E existe o perigo iminente de vazamento de radiação, como a trama insiste em lembrar. Por isso, os funcionários são obrigados a carregar uma espécie de crachá com o dispositivo que indica se a radiação está subindo além dos níveis permissíveis.

Há então esse dado concreto de uma profissão perigosa, que rima com o envolvimento amoroso de risco como o de Gary e Karole. A diretora sabe explorar bem esse mix de disposição e fragilidade tão naturais em Tahar. Ele chega ao ambiente estranho como quem precisa de ajuda e proteção. No emprego novo encontra quase uma família. Dinheiro, amigos, a frequência ao bar onde se reúnem depois do trabalho, os fins de semana juntos. Mas há a provocativa Karole, recém-casada com Toni (Denis Ménochet) que, afinal, é ótimo sujeito.

O filme se vale do “tema importante”, que obceca a consciência europeia depois dos desastres em Chernobyl e Fukushima. O material de divulgação nos avisa que não houve oportunismo na escolha do assunto. O roteiro já estava escrito quando aconteceu o fatídico acidente com a usina nuclear japonesa. Ok. Coincidência. Em todo caso, existe, em toda parte, mas em particular na Europa e mais ainda na França (onde um grande porcentual da energia elétrica é de origem atômica), essa desconfiança mais que justificada com a energia nuclear, mesmo quando usada para fins pacíficos.

Desse modo, não se trata de um aspecto menor do projeto o seu lado, digamos assim, documental, quando leva a câmera ao interior da usina, com seu ar science fiction, bastante assustadora em sua estética grandiosa e despojada. No ventre da besta, o ser humano parece pequenininho e é exatamente essa a sensação que Rebecca procura passar com seus planos abertos do reator. A impressão é de desumanização completa. Um ambiente no qual as pessoas não valem grande coisa e têm de se virar por si sós para sobreviver.

Por outro lado, há o fator humano, as pessoas reais que, em sua fragilidade, procuraram se ressarcir psicologicamente de trabalho tão desgastante. Daí as reuniões regadas a álcool após o expediente, as brincadeiras pesadas, uma familiaridade muito imediata entre seres à beira do abismo. Tudo parece dizer que viajam no mesmo barco, trabalhando no risco; hoje vivos, amanhã, quem sabe? E, nesse ambiente árduo e um tanto histérico, há o desejo que circula livremente. Como se sabe, com o desejo ninguém pode.

Segundo filme de Rebecca Zlotowski, Grand Central destoa dos clichês associados ao cinema europeu, francês em particular. Nada tem de ostensivamente intelectual ou palavroso. Os personagens são pessoas simples, às voltas com um trabalho indigesto e sua gana de viver, que os predispõe, talvez, a paixões perigosas. O ritmo é intenso e o erotismo explode no quadro de uma tensão permanente. É cinema que privilegia mais a ação que a reflexão, embora esta possa surgir nas entrelinhas de um caso de amor de altíssima temperatura. Tão alta como a do processo de fissão nuclear…

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