As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

A eleição francesa e a confusão ideológica

Luiz Zanin Oricchio

06 Maio 2007 | 10h57

Às vésperas de uma eleição muito polarizada, é natural que as revistas francesas revezem suas capas com Ségolène Royal, Nicolas Sarkozy, ocasionalmente dando vez ao centrista François Bayrou. Sem deixar de lado o assunto principal, a Le Nouvel Observateur resolve inovar e dá como assunto de capa a matéria ‘De quelle Tribu Êtes-Vous?’ A que tribo você pertence?

O título é reconhecimento de que hoje em dia as categorias políticas tradicionais não bastam, embora Sarkozy seja identificado à direita, Ségolène à esquerda, Bayrou ao centro e Le Pen à extrema-direita. Mas, para além desse espectro político cuja origem remonta à Revolução Francesa, existe hoje um fenômeno de tribalização política, uma reunião em grupos por reações a fatos ou afinidades de idéias.

Uma das tribos, por exemplo, seria a dos indecisos, que teria como divisa um ‘Hesito, logo existo’, paráfrase do cogito cartesiano. Esse grupo é inimigo das mídias e das pesquisas de opinião e elege o cômico Coluche como ‘gente sua’. Outros grupos listados pela Nouvel Obs: os traumatizados de 21 de abril, que não compareceram à eleição de 2002 e, com sua abstenção, causaram a derrota do socialista Lionel Jospin; este ano eles irão em massa depositar seus votos em Ségolène; os ecologistas desesperados; os apóstolos do ‘ségolènismo’, mas também os eleitores de esquerda que jamais votariam em Ségolène por achá-la moderada demais. Um grupo pitoresco é formado pelos sarkozystas de esquerda, uma contradição em termos, mas que a revista garante não se tratar de fantasia sua. Como prova, entrevista um ex-maoísta de 52 anos, depois convertido ao socialismo moderado e que agora garante ser Sarkozy a ‘possibilidade de passar tranqüilamente de uma margem à outra’. Existe mesmo um grupo de ‘beurs lepénistas’, membros da comunidade árabe francesa e admiradores do direitista, nacionalista e racista Jean Marie Le Pen.

Quer dizer, a confusão ideológica própria da nossa época existe também em sociedades como a francesa, na qual os conceitos de direita, centro e esquerda pareciam mais bem sedimentados que entre nós.

Obs: como tema afim, leia no Cultura de hoje a excelente entrevista de Ubiratan Brasil com o ensaísta Russell Jacoby sobre a apatia política em tempos pós-utópicos.