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A Doce Vida leva a Palma das Palmas

Luiz Zanin Oricchio

28 Maio 2007 | 00h28

Você é uma pessoa bem informada e, portanto, a essa altura do campeonato, já sabe que um filme romeno ganhou a recém-encerrada edição do Festival de Cannes. Trata-se de Quatro Meses, Tres Semanas e Dois Dias, de Christian Mungiu.

Mas o assunto aqui é outro. Uma revista francesa fez uma enquete interessante, colocando em concurso todos os vencedores de Cannes até hoje perante um júri qualificado e heterogêneo. Adivinhe: Deu Federico Fellini na cabeça. Em enquete conduzida pela revista Le Nouvel Observateur, perguntando qual seria o melhor filme entre todos os vencedores do Festival de Cannes, deu A Doce Vida, que levou a Palma de Ouro em 1960. Votaram críticos e realizadores, da França e de outros países. Os outros mais votados foram Apocalypse now, de Francis Ford Coppola, Taxi Driver, de Martin Scorsese, e Viridiana, de Luis Buñuel.

Uma curiosidade: com exceção de um voto para Elefante (Palma de 2003) e A Enguia (1997), todos os outros lembrados são vencedores de 10 ou mais anos. Saudosismo? Não é assim que a revista interpreta a tendência de um júri tão qualificado quanto heterogêneo (Gaspard Noé, Claude Miller, Raoul Coutard, Xavier Beauvois e Robert Guédiguian, o brasileiro Walter SAlles, entre outros). É que, no cinema como em outras artes, se justifica o lugar-comum sobre o tempo e seu julgamento. Com o recuo e a perspectiva, as paixões de momento tendem a se diluir e as obras consistentes a se impor.

E assim ficamos com A Doce Vida que, no interior da obra de Fellini, rivaliza com Oito e Meio e Amarcord pela disputa de melhor entre os filmes do maestro. Mas aquela complexa evocação dos anos loucos do após-guerra, do advento da sociedade do espetáculo com os paparazzi (termo popularizado pelo filme) e da angústia diante da ameaça nuclear, foi o único filme de Fellini a ganhar uma Palma de Ouro.

A revista conta ainda algumas histórias sobre A Doce Vida. Acusando-o de blasfemo, o órgão oficial do Vaticano, L’Osservatore Romano, publicou uma série de sete artigos, atacando-o e ameaçando de excomunhão os fiéis que fossem assisti-lo. Mas foi defendido pelos jesuítas. A interdição da Igreja só foi levantada em 1994, meses após a morte de Fellini, em 31 de outubro de 1993.

Hoje, A Doce Vida é considerado obra-prima praticamente inquestionável. Tanto que aparece em primeiro lugar nessa pesquisa. Foi assim na época? Nada mais incerto. A maioria amou-oao primeiro fotograma e elegeu a cena de Anita Ekberg na Fontana de Trevi como uma das mais marcantes da história do cinema. Mas há sempre as opiniões contrárias. Doniol-Valcrove escreveu no France Observateur: ‘Sob o olhar da crítica, A Doce Vida se desmantela…e não resta dele senão uma série de acontecimentos mais ou menos extraordinários, sem qualquer elemento forte que os ligue e conduza a uma significação geral. O personagem Marcello, vivido por Mastroianni, é um fantoche que se relaciona com outros fantoches.’ É como se diz: o papel aceita tudo.