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A democracia segundo Saramago

Luiz Zanin Oricchio

19 Novembro 2006 | 10h12

Amigos e amigas, eis aí o texto que escrevi hoje para o Revista das Revistas, do Cultura, sobre o escritor José Saramago.

Continuam repercutindo pelo mundo as entrevistas que o escritor José Saramago vem dando no lançamento do seu livro A Lucidez. Quem conversa com ele, para a semanal francesa Le Nouvel Observateur, é o escritor Didier Jacob.

Saramago, comunista e Prêmio Nobel, vem concedendo entrevistas polêmicas e não por acaso. Na verdade, o próprio livro é provocativo, já em sua premissa. Saramago imagina uma situação na qual a população de um país não identificado simplesmente renuncia a exercer seu direito de voto. Nada de escandaloso para o escritor, que defende a tese de que as democracias são um engano do verdadeiro poder. E qual seria esse “verdadeiro poder”? Para Saramago, não é preciso ir muito longe e nem ser muito inteligente para saber que se trata do poder econômico.

“As democracias ocidentais são fachadas políticas do poder econômico”, diz. “Fachadas com cores, bandeiras, discursos intermináveis sobre a democracia.” E acrescenta: vivemos em uma época em que temos o direito de discutir de tudo, menos a própria democracia. Segundo Saramago, nós a tratamos como um bem adquirido, óbvio, inquestionável, como uma peça de museu sobre a qual se colou a etiqueta: “Proibido tocar.”

Talvez não ocorra a Saramago que, mesmo para atacar a democracia, é preciso que se esteja em um regime democrático, no qual valha a liberdade de expressão e pensamento. Mas as críticas tocam em outros pontos. Por exemplo, no pleno emprego, que era uma promessa não da democracia em si, mas da social-democracia. E hoje, como ele diz, “vivemos uma espécie de anestesia social”. E em toda a parte, afirma. Quem decidiu essa precarização do trabalho?, se pergunta. E ele mesmo responde: algum governo? O português, o italiano, o francês? Claro que não: foi o poder econômico. Saramago diz que, apesar de parecer uma expressão antiquada, “é o poder econômico que controla o mundo”. Foi o poder econômico que enfiou nas consciências que o mercado deve agir de mãos livres e, assim fazendo, levou à conclusão de que o pleno emprego é um obstáculo.

O jornalista da Nouvel Observateur lhe pergunta se está fazendo a apologia do voto em branco e Saramago responde que não: mas entende que se trata de uma atitude política, diferente da abstenção. Para ele, o cidadão que sai de casa, dirige-se ao local de votação e deposita a cédula (ou seu equivalente eletrônico) em branco está tomando uma atitude política – e dizendo o que pensa da democracia.

Pelo menos da democracia “formal”, que é como Saramago a define. “Você sabe, eu nunca escondi minhas convicções. Sou comunista e por isso sou tratado como inimigo da democracia. Pelo contrário, eu quero é salvar a democracia e para isso é preciso criticar esse simulacro de democracia em que vivemos.”

Quando o entrevistador (que não é nada passivo, aperta o entrevistado) lhe pergunta se algum dos antigos países comunistas seria um modelo de democracia, Saramago se safa rapidamente: “O comunismo? Ora, isso jamais existiu em nenhum país e em tempo algum. Mesmo na ex-União Soviética, o que havia não era nada senão um capitalismo de Estado.”