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A Culpa é do Fidel

Luiz Zanin Oricchio

26 de dezembro de 2007 | 12h02

Sendo filha de quem é, Julie Gavras deveria mesmo mostrar alguma inclinação pelo cinema político. Afinal, seu pai, o franco-grego Constantin Costa Gavras, assina alguns clássicos do gênero, como Z e Missing – Desaparecido. E, para não decepcionar ninguém, Julie entra mesmo por essa vertente, mas o faz com um toque muito pessoal e feminino, que inclui características nem sempre presentes no cinema do pai – o humor e a ternura.

A idéia de Julie Gavras é esboçar um retrato do que foi a cultura de esquerda dos anos 60 e 70, mas pelos olhos dos filhos dos militantes, o que não deve excluir alguns traços autobiográficos, embora o filme seja baseado no livro italiano Tutta Colpa di Fidel, de Domitilla Calamai. Isso não tem importância: quando nos identificamos com um livro (ou com um filme) ele conta um pouco da nossa própria história pessoal, e isso deve ter acontecido com Julie, filha de um homem tão engajado.

Assim, a situação-chave deve ser bem conhecida de Julie. O que significava, na época, ser uma criança em idade escolar e ter pais militantes políticos? É a situação que precisa ser enfrentada por Anna (Nina Kervel-Bey) que tem 9 anos e deve se conformar a um universo familiar regido por pais de esquerda, e fundamentalistas (Stefano Acorsi e Julie Depardieu). Um pequeno trecho daquela época de sonhos, muitos dos quais transformados em pesadelos, passa pelos olhos da garota – dos reflexos da revolução cubana ao maio de 1968, da eleição à queda de Allende, passando pela Guerra do Vietnã. O título vem da frase de sua babá, uma cubana no exílio em Paris para quem o Comandante é responsável por todos os males do mundo.

A babá “reacionária” será trocada por outra, vietnamita, teoricamente mais afinada com os donos da casa, e assim por diante. A política internacional atinge a menina de maneiras distintas. Desde a proibição de ler Mickey, beber Coca-Cola ou consumir qualquer outro produto vinculado ao imperialismo ianque, até conviver com barbudos, amigos da família, que lhe explicam o mecanismo de opressão do sistema capitalista. Ah, sim, o ensino religioso da escola será outro problema na família cujo credo baseia-se no materialismo histórico.

Tudo é feito com leveza e graça e nem mesmo aqueles que estiveram alinhados à esquerda na época das utopias devem ter motivos para se ofender. Afinal, aqueles anos foram mesmo ideologizados em excesso (de ambos os lados). Hoje tudo isso parece um tanto risível – pelo menos para quem soube manter um mínimo de bom humor e lucidez, termos que são praticamente sinônimos.

Da mesma forma, A Culpa É do Fidel não deixa de ser uma modalidade (cômica) do revisionismo histórico ainda em curso e que se destina a demonizar a esquerda. Mas se coloca nesse processo de uma maneira nada cínica ou malévola. Hoje é fácil bater na esquerda mundial, em função dos desdobramentos históricos como a queda do Muro e o fim da União Soviética, em especial. Os anos 1990 e começo dos 2000 têm sido marcados por esse triunfo do individualismo liberal, e um fundamentalismo foi trocado por outro, o do mercado. Qualquer referência a projetos coletivos e à justiça social tende a ser desqualificada e ridicularizada.

Nesse sentido, o modo de criação de uma garota como Anna seria hoje visto, pelo pensamento dominante, como uma espécie de mostruosidade pedagógica e seu futuro pareceria dos mais incertos. Mas não é exatamente por aí que o filme caminha, o que pode decepcionar parte do público de direita, que talvez tenha se divertido demais na primeira parte da história.

Julie Gavras não se nega a fazer essa necessária revisão histórica, mas cuida-se para não perder a ternura jamais.

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