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A crítica reflexiva que não envelhece

Luiz Zanin Oricchio

28 Fevereiro 2010 | 10h00

É uma trajetória e tanto a do jornalista Ely Azeredo, que agora tem seus textos coletadas em Olhar Crítico – 50 Anos de Cinema Brasileiro (Instituto Moreira Salles, 416 págs., R$ 54). Como diz o título, o livro resume o trabalho de avaliação de meio século da aventura brasileira nas telas, visto por um dos nossos críticos mais atuantes. Aliás, no artigo introdutório, o próprio Ely diz, com humor, que não aspira a ser incluído no Guinness Book of Records, mas deve reconhecer que, de fato, “nenhum outro crítico de cinema atuou em diários de circulação nacional por tão extenso período”. Quem chega mais perto, lembra, é Pedro Lima, que manteve a atividade por 39 anos.

Ely Azeredo começou na Tribuna da Imprensa em 1953 e passou pelos principais cotidianos cariocas ao longo dos anos. Ao todo, calcula ter escrito mais de 5 mil artigos sobre cinema, entre ensaios, entrevistas, reportagens, mas, acima de tudo, críticas. Muitas – cerca de 700, calcula – se perderam. Das que restaram, o livro traz uma seleta de 98 artigos. Ely optou pelo formato em flashback – vai do mais recente ao mais recuado no tempo. Com exceção do primeiro texto – sobre Cidade de Deus, de 2002 – colocado na abertura do volume, os artigos vão de 2003 a 1953, para fechar a conta redonda dos 50 anos de atividade. A primeira crítica é de Carandiru, de Hector Babenco, publicada no Jornal do Brasil em 2003. A mais recuada é a da animação Sinfonia Amazônica, que saiu na Tribuna da Imprensa em 1953. Mas o texto que fecha o livro é um ensaio sobre a chanchada e a companhia cinematográfica Atlântida, publicada em 1990, em O Globo.

Durante a sua longa atividade como crítico, Ely Azeredo assistiu a muitos filmes e presenciou a ascensão e o declínio de diversas fases importantes do cinema brasileiro. Pegou ainda a chanchada, com seu grande apelo popular, viu a fundação e a falência da ambiciosa Companhia Cinematográfica Vera Cruz, testemunhou a revolução de jovens contestadores dos anos 60 e lhes deu, de graça, um rótulo destinado a correr mundo – o de “Cinema Novo”, slogan que usava para se referir ao grupo em seus artigos na Tribuna da Imprensa e que foi apropriado por Glauber Rocha e amigos. Viu o fim das ilusões dos cinema-novistas e a subida à cena do cinema dito marginal. Conviveu com a Embrafilme, depois, com a estagnação do período Collor, quando o cinema brasileiro quase acabou. Em seguida, acompanhou o renascimento, batizado de Retomada.

Essa é a viagem que Ely Azeredo compartilha com seus leitores quando reúne a nata de sua produção jornalística. São textos de momento, como tudo que se publica em jornal, o que não quer dizer que tenham perecido, ou sequer envelhecido. Tudo o que se escreve com estilo perdura. E Ely, concorde-se ou não com suas avaliações, mostra sempre personalidade e conhecimento. Suas palavras são expressão de um olhar pessoal, e independente. Por isso, preservou a maioria dos textos da maneira como foram publicados e consumidos no café da manhã pelos leitores dos jornais. Cortou trechos que considerou repetitivos. E juntou algumas notas de rodapé, com esclarecimentos necessários. O básico, no entanto, está preservado, o que é fundamental para que esses textos sirvam como documentos de época. Sim, pois uma história das avaliações críticas pode fornecer subsídios importantes para a prospecção da mentalidade de um período histórico. Ainda mais quando essa atividade se estende por tantos anos.

Por exemplo, é muito interessante saber que o inventor da expressão Cinema Novo não era fã incondicional dos cinema-novistas. Gostava do Glauber Rocha de Deus e o Diabo na Terra do Sol,mas não do de Terra em Transe, sobre o qual escreve uma crítica demolidora. “Alegoria desordenada, geralmente hermética, revelando imaturidade e primarismo, etc.” Também não suspirava por O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro,vendo nele “a demolição das conquistas formais de Deus e o Diabo”. Via em Vidas Secas uma obra-prima e, em seu diretor, Nelson Pereira dos Santos, o tradutor ideal em linguagem de cinema daquilo que Graciliano Ramos havia pensado em palavras.

É sempre muito fácil, quando se lê uma coletânea, dizer que o crítico “errou” ou “acertou”. Errou ao não reconhecer no momento de estreia o filme que hoje faz parte do cânone ou quando valorizou obras que se mostraram datadas. Pouco importa. Todos estamos sujeitos às vicissitudes do tempo e não podemos adivinhar o que a posteridade dirá a respeito desta ou daquela obra. Tudo o que se pode fazer é abordá-la com paixão, senso de justiça e mente clara no momento em que surge, pois todo filme novo é um desafio e um enigma proposto ao crítico. Se este faz seu trabalho com talento, o texto permanece, mesmo que a posteridade não avalize suas conclusões.

Falando sobre a crítica, Martin Scorsese disse que, no âmbito do cinema, opiniões têm vida curta; reflexões permanecem. Ely Azeredo nos legou reflexões. Sua leitura enriquece.