A crítica da sociedade do espetáculo
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A crítica da sociedade do espetáculo

Luiz Zanin Oricchio

08 de abril de 2008 | 13h33

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Guy Debord (à esquerda)

Poucas expressões definem melhor a nossa época do que ‘sociedade do espetáculo’. Mas muita gente que a usa em conversa de bar talvez não saiba que este é o título de um livrinho famoso, editado na França em 1967, por um senhor de nome Guy Debord. No ano seguinte ao seu lançamento, o livro, composto de aforismos encadeados, tornou-se referência obrigatória nas barricadas do maio de 68 francês.

Debord foi, talvez, o crítico mais inspirado da nossa era de conformismo – essa que, por paradoxo, começava naqueles anos de contestação. Também foi cineasta, se é que se pode usar essa palavra, que evoca uma profissão, para um outsider como ele. Morto em 1994 (suicidou-se), Debord tornou-se uma espécie de figura recalcada na vida intelectual contemporânea. Importante demais para ser esquecido; radical demais para ser constantemente lembrado.

Pois bem, essa figura especial é agora tirada do limbo pelo Centro Cultural Banco do Brasil sob um excelente pretexto – as comemorações dos 40 anos de 1968, esse ano que não termina jamais, segundo a feliz definição do jornalista Zuenir Ventura. Sob o título provocativo de Que Situação hein, Debord?, os curadores Marcus Bastos e Milena Szafir propõem um programa cultural bastante amplo: todos os filmes de Debord serão exibidos, junto com outros que com eles dialogam; e mais: de mesas de debates a videoinstalações, culminando com uma manifestação de rua.

Sim, Debord (1931-1994) foi homem de vanguarda e nunca se enfiou em qualquer casulo estético. Daí que as mesas se proponham discutir temas como arte x política; apropriação digital, videoativismo, intervenção urbana, urbanismo e espaço público. Apropriadamente (dado o personagem em questão), o evento, que vai de hoje a 24, terminará com uma ‘ação-processo’, uma intervenção urbana no centro de São Paulo. Os interessados em participar precisam ter mais de 16 anos e devem enviar carta de interesse e currículo para debordSP@manifesto21.com.br.

A idéia de trazer o público para o centro do debate, até mesmo fisicamente, entra em sintonia com o pensamento de Debord, político e participativo. A proposta é de aproximar termos em geral considerados em separado, como teoria, reflexão e prática. Enfim, um evento seriamente dedicado a Debord, e ao maio de 68, não poderia se contentar em passar pela tela do cinema, e por aí ficar. Mesmo porque, como diz o curador Marcus Bastos, ‘Debord aponta a carga ideológica presente nas imagens, e acredita que as imagens de sua época são indícios de que é preciso mudar a sociedade em que vive’.

Para que se tornem efetivos, os filmes deixados por Debord precisam ser experimentados, discutidos, vividos. Não se estabelece, com eles, uma mera relação de fruição estética, mesmo porque são bastante refratários à contemplação. É o caso de A Sociedade do Espetáculo (1973), trabalho de idéias que se apropria de imagens de diversas fontes para discutir a tese central do autor – as nossas sociedades modernas elegeram o espetáculo como característica central da sua existência. O primeiro aforismo do livro (aqui editado pela Contraponto, em 1997) define o ponto de partida do filme: ‘Toda a vida das sociedades nas quais reinam as modernas condições de produção se apresenta como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era vivido diretamente se tornou uma representação.’

Essas idéias estão também presentes em outros filmes como Sobre a Passagem de Umas Poucas Pessoas Através de Uma Breve Unidade de Tempo (1959), Crítica da Separação (1961) e o radicalíssimo In Girum Imus Nocte et Consumimur Igni (1978). Este toma por título um palíndromo latino (pode ser lido da mesma forma nas duas direções) que significa ‘Damos voltas pela noite e somos consumidos pelo fogo’. Frase antiga, e cheia de sentido para as idéias novas de Debord.

A vida em si transformada em show da vida – essa a grande sacada de Debord, num tempo em que ainda isso não era tão evidente quanto hoje. O que diria ele neste tempo de câmeras por toda a parte, supersaturação de imagens, telas de celular, internet e Big Brother? Bem, talvez hoje fosse fácil demais afirmar que ‘O espetáculo não é (apenas) um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediada pelas imagens’. Mas em 1967 era uma sacada e tanto. Colocava o espetáculo não como manifestação acessória da vida contemporânea, mas como sua essência mesma. Essa mediação sem cessar através das imagens é o que separa o homem do homem. Tornou-se a figura contemporânea da alienação.

Não são poucos os impasses presentes na obra (livros e filmes) de Guy Debord, se é que se pode chamar de ‘obra’ produção tão singular. De um lado, a crítica radical daquilo que a modernidade tem de mais característico – a imagem, procurando mostrar que ela não é nunca neutra, que traz em si inevitavelmente uma carga ideológica. Por outra, essa idéia de espetáculo como a forma moderna da alienação, tendo caráter tautológico por sua própria natureza (‘O espetáculo não deseja chegar a nada que não seja ele mesmo’). Daí o título do filme com o palíndromo latino. Lê-se da direita para a esquerda como da esquerda para a direita, como a cobra que morde o próprio rabo. Debord dizia que a própria arte havia perdido seu gume subversivo no momento em que passara totalmente do lado do espetáculo. E daí a impressão de uma prisão sem paredes que emerge da sua obra e a sua tentativa de, por meio dessa obra, se colocar numa posição que não seja, ela própria, alienada.

São impasses criativos, desde que não se sucumba a eles.

Serviço

Que Situação Hein, Debord? Hoje, 19 h, Debord: Sua Arte e Seu Tempo (1995), de Guy Debord. Centro Cultural Bancodo Brasil (70 lug.). Rua Álvares Penteado, 112, centro, telefone 3113-3652. Grátis (ingressos a partir das 10 horas). Até 24/4

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