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A crise e a profecia do apocalipse

Luiz Zanin Oricchio

12 de março de 2009 | 09h41

Deliciosa crônica de Cony hoje na Folha. Ele diz reconhecer humildemente a gravidade da crise mundial, mas discorda do tom apocalítico dos colegas. O mundo não vai se acabar, como não acabou naquele samba cantado por Carmen Miranda. Acontece que a imprensa, no mais das vezes, vive da sinistrose. Cony conta que Mario Filho (que, além de irmão de Nelson Rodrigues, deu nome ao Maracanã), quando diretor do Jornal dos Sports, mandou parar a edição que estampava a manchete “Vasco destroçado”. O argumento de Mario era que um time como o Vasco podia perder um jogo ou o campeonato, mas jamais ser destroçado.

Dificuldades existem, mas dificilmente significam o fim do mundo, como se proclama a cada dia. Vícios da profissão: se o cachorro morde o homem, isso não é notícia. Mas se o homem morde o cachorro, temos uma manchete. Ou, na frase imortal de Kirk Douglas em A Montanha de Sete Abutres, quando o diretor lhe pede uma matéria sobre a abundância da safra daquele ano: “Good news is no news”. Tradução livre: boa notícia não vende jornal.

Desembarquei em Cuba durante o chamado “período especial” e cheguei preparado para enfrentar o inferno na Terra pelo que lia na imprensa brasileira. Na van que veio nos buscar no aeroporto encontrei um clima inesperado. O motorista e os dois carregadores de bagagens riam tanto, uns brincando com os outros, que pensei: “se a crise é assim tão grande como dizem, do que tanto riem esses caras, como se divertem tanto?” E, de fato, nos dias seguintes não foi difícil encontrar muitos sinais visíveis de que a ilha passava por grandes dificuldades. Todas incapazes de derrotar o invencível bom humor cubano.

Assim é a vida – a cores e com muitas nuances entre elas. Mas, quando abrimos os jornais de manhã, ou ouvimos o rádio com seus especialistas e a TV com seus palpiteiros temos a impressão de que a humanidade está com seus dias contados.

Como Cony, eu não subestimo a crise. Apenas pergunto, também com humildade, se essa é a primeira vez que usamos essa pequena palavra. Eu, pelo menos, convivo com ela desde pequenininho. E aqui estou. Vivo, e mais ou menos são.

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